vídeo Aos 96 anos, nada mais é difícil para Dona Rosa: ‘o sentido da vida é conseguir que todos se queiram bem’

Aos 96 anos, Rosa Maluf Milan ainda usa salto alto – é um saltinho pequenininho, de uns dois centímetros, mas é salto alto.

E foi em cima do salto que a elegante empresária, que teve a sorte de ter nascido numa família rica, conseguiu se equilibrar para chegar aos quase 100 anos praticamente sem dores e com uma memória de quem consegue lembrar a história de toda a sua vida, sem interrupções. “Não sinto nada, nem dor de cabeça.”

DSCN9257O maior “tropeço” aconteceu há 50 anos: perdeu o grande amor de sua vida, por quem é apaixonada até hoje. Seu ex-marido, o médico Rachid Milan, morreu vítima de leucemia, aos 49 anos – ela tinha 47.

“Foi a coisa mais triste da minha vida. Não teve coisa mais triste.”

Rachid pode ter ido embora, mas vive no coração da amada até hoje. Dona Rosa se lembra dele todos os dias, acorda de madrugada para rever fotografias e tem de cor as 50 cartas de amor que trocaram quando ainda eram namorados. “Sinto muitas saudades… Ele era lindo. Eu adorava ele, tinha loucura por ele.”

Eu fui cordialmente recebida por Dona Rosa em seu espaçoso apartamento na Bela Vista, na capital paulista. A conheci após assistir um curta-metragem sobre sua história, chamado justamente “Dona Rosa” , produzido por seu neto Mathias Mangin e Lucas Mandacaru (assista aqui o teaser).

Ela me mostrou toda a requintada mobília, que escolheu a dedo no passar de todos esses anos. Espalhadas pela casa, porém, o bem de maior valor para ela são, sem dúvida, as inúmeras fotos de Rachid e da família, que mostra orgulhosa.

“Eu tive muita energia na vida, eu nunca tive medo de nada. Muita tristeza eu tenho, eu sinto muita saudades dele, muitas saudades… Veja como ele era lindo”, me dizia, aos mostrar as imagens.

O trabalho
Foi no trabalho que Dona Rosa encontrou forças para superar a morte do ex-marido. Pouco antes de partir, já doente, Rachid deu a ela uma missão:  “se eu morrer hoje, comece a trabalhar amanhã”.

O companheiro sabia que a esposa sofreria muito com sua ausência e sugeriu que trabalhasse para suportar a perda. “Ele morreu no domingo, na segunda-feira foi enterrado, e na terça-feira eu já estava no banco. Foi muito bom começar a trabalhar. Foi muito bom porque eu me curei da ausência dele trabalhando.”

Dedicou a vida toda para cuidar das três filhas. “Fiquei viúva há cinquenta anos e só cuidei de uma coisa, delas, o tempo todo. Todas estudaram no exterior, elas têm muita cultura.”

É com muito orgulho que Dona Rosa fala das filhas: a mais velha é médica, psicanalista e escritora. A do meio é arquiteta, professora de arquitetura, e foi diretora do Museu da Casa Brasileira. A mais nova estudou economia na USP, mas não seguiu a profissão e hoje “faz monumentos pelo mundo.”

‘As coisas acontecem, eu tenho que aceitar’
Enfrentou certo machismo por ser mulher e estar à frente dos negócios na época, mas não ligava e se atirava nos trabalhos. “Não foi tão fácil. Eu tinha um pouco de medo. Mas foi lindo, aprendi, tudo eu aprendi. Aprendi com o mundo, parando e ouvindo.”

E com todos esses anos de experiência, diz que tudo de resolve: “Não tem mais nada difícil para mim, tudo é fácil. Tudo se resolve, com bom senso.”

Entre outros momentos difíceis da vida, cita a morte do primeiro filho, aos nove meses de gestação, e a morte de um irmão, aos 26 anos. “Mas tudo passa, nada fica. Eu vejo que as coisas acontecem, se eu quiser ou não quiser. Acontecem. Eu tenho que aceitar.”

Casamento de Dona Rosa e Rachid
Casamento de Dona Rosa e Rachid

Juventude no palácio
Mais velha de seis irmãos, Dona Rosa nasceu no dia 30 de dezembro de 1917.

Filha de imigrantes libaneses, cresceu em um palácio construído por seu pai na Bela Vista, na capital paulista. Estudou até a oitava série em um colégio de freiras. Cresceu em meio a festas e bailes no salão do palácio, que foi demolido por sua família para a construção de um prédio onde ela vive até hoje.

Casou-se com Rachid aos 24 anos, mas o conheceu dez anos antes, em Capivari, onde sua mãe tinha parentes. “Lembro bem. Quando cheguei lá, a primeira pessoa que a gente viu foi um homem de farda verde. Lindo, moreno, tinha 16 anos. E aí começamos a nos gostar”, revela.  “Era uma vida simples, mas de muito amor.”

Foram dez anos de “paquera” até o casamento. “Naquele tempo não existia namoro. A gente se via numa festa, no piquenique, namoro não existia.”

Dona Rosa conta que Rachid era amigo de seu irmão, então costumava se hospedar no palácio onde vivia e, por isso, participava das festas que aconteciam em sua casa. “Aos domingos ele vinha na casa da minha mãe, porque minha mãe não deixava nós dançarmos em outro lugar, tinha que ser no palácio. Todo domingo tinha reuniões, os velhos jogavam baralho, os moços tocavam piano, violino, dançavam.”

O noivado era muito discreto: “a gente dançava, mas não tinha nada de beijo e abraço, isso não existia.”

O primeiro beijo ela só foi dar 15 dias antes de se casar. “Eu tremia, imagina se eu tinha coragem de dar um beijo em alguém? Ele era um moço muito bonito, moreno de olhos verdes, e muito cobiçado, a mulherada caía em cima dele.”

‘Não sei do que vou morrer’
Consciente de que a morte pode vir a qualquer momento, diz estar preparada. “A hora que vir está bom. Só não quero sofrer.”

Certa vez ela perguntou ao médico do que morreria. “Eu não sei do que eu vou morrer, porque eu não tenho doença nenhuma. Nem dor de cabeça, nada. De velhice, ele falou. Mas quando vence a velhice? Estava na hora…”

Sobre o sentido da vida, numa primeira resposta ela disse não saber até hoje. “Não tem sentido, eu não entendo por que a gente vive, por que a gente morre, eu não entendo. Por que Deus fez assim? Viver e morrer, você entende? Eu também não entendo…”

Depois, ao final da conversa, deu uma nova resposta: “É passar bem, conseguir que todo mundo se queira bem, é muito importante, não brigar com as pessoas.”

Para conseguir isso, acredita ser necessário ter muita educação. “A pessoa educada não briga com ninguém, chega a uma conclusão, a um sentido. Não é fácil, mas a gente consegue, sempre, tudo o que você quiser na vida você consegue, é só querer.”

Entende que foi vitoriosa nesse aspecto, porque acredita que conseguiu fazer com que as três filhas e os cinco netos se queiram bem.

Disse que um de seus desejos era que suas filhas pudessem ‘ser mais do que ela’. “Eu fui criada em um colégio de freiras, quando tive minhas filhas, era outra época, elas poderiam ser superiores a mim, e elas foram, elas mesmas se fizeram, tenho muito orgulho.”

Perguntei se ela espera chegar aos 100 anos, mas ela revelou que não pensa nisso, preocupa-se apenas com cada dia. “Quando a gente acaba bem tá bom, você vê, com 96 anos e estou bem, não tenho rugas.”

“Se viver até os 100 anos bem, senão, paciência, ‘Après moi, le déluge’, conhece francês? Depois de mim, o dilúvio.”

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s