Para ex-fraudador que inspirou filme ‘Prenda-me se for capaz’, o sentido da vida é a família

Frank Abagnale Jr. trabalha há 38 anos no FBI
Frank Abagnale Jr. trabalha há 38 anos no FBI

O ex-fraudador norte-americano Frank Abagnale Jr., que tem a história bastante conhecida, contada no filme “Prenda-me se for capaz”, com Leonardo DiCaprio, esteve no Brasil há algumas semanas.

Ele veio participar de uma palestra sobre fraudes contra o consumidor e eu fui encarregada de cobrir o evento pelo Portal G1, onde trabalho.

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Conheça a história do homem que inspirou o Prenda-me se for capaz

Acontece que a palestra dele não foi a respeito de fraudes, mas sim um emocionante relato sobre a história de sua vida. Sorte que eu estava lá. Ao final do encontro, aproveitei para perguntar a ele qual é sentido da vida.

“Eu sei que as pessoas são fascinadas pelo o que eu fiz, então eu tento usar isso, o que capta a imaginação delas, e trazê-las para a minha história. Mas a verdadeira proposta daquela conversa [a palestra que deu] é fazer as pessoas entenderem como a minha vida se transformou e o que mudou a minha vida. E para mim o mais importante para cada um é sua família, porque tudo o que você realmente terá sempre na sua vida é sua família, sua mãe, o seu pai, seus irmãos, sua mulher, seu marido, seus filhos. Então eu tento lembrar as pessoas que não é o dinheiro, não são essas coisas, é a família que é importante, nada mais.”

As fraudes

Para quem não assistiu o filme, por cinco anos, na década de 1960, ele levou uma vida de alto padrão graças aos cheques sem fundo falsificados que emitia. Para ganhar credibilidade, forjava identidades, fingindo ser piloto de avião, médico e advogado, entre outros. Foi preso e depois solto na condição de ajudar o país no combate a fraudes. É ligado ao FBI há 38 anos.

No depoimento, contou o que aconteceu antes de começar a praticar os crimes: seus pais decidiram se divorciar, mas mantiveram segredo. Ele ficou sabendo da notícia pelo juiz, que pediu que escolhesse com quem queria viver, se com a mãe ou com o pai. Sem conseguir dar uma resposta (ou de ter condições de fazer uma escolha), a decisão do adolescente de 16 anos foi fugir de casa.

“O juiz nem olhou na minha cara. Só disse para mim, ‘seus pais estão se divorciando’. Eu tinha que escolher com quem eu tinha que ficar. Eu tive que sair da sala [para tomar a decisão]. Quando meus pais viram, eu já tinha fugido de casa. Minha mãe só foi me ver sete anos depois. Meu pai nunca mais me viu e nem falou comigo.”

Revelou que seu pai morreu quando estava indo visitá-lo na prisão. “Eu estava na cela, meu pai estava subindo as escadas, bateu a cabeça e morreu, eu estava na cela louco para abraçá-lo, beijá-lo, mas eu nunca pude fazer isso.”

Como tudo aconteceu

Ele disse que cresceu em Nova York e era o filho do meio do casal. Na época, seu pai tinha uma papelaria em Manhattan e aos 14 anos já fazia as entregas, o que permitiu que conhecesse muito bem a cidade. Dessa forma, depois que fugiu de casa procurou o mesmo tipo de trabalho.

“Só que, aos 16, o quanto você estudou? Eu queria ganhar dinheiro, mas não conseguia e percebi que enquanto as pessoas vissem que eu tinha 16 anos, não iam me pagar bem. Eu era alto, parecia ser mais velho, então comecei a mentir. Em Nova York você podia dirigir com 16 anos e não tinha foto na carteira de habilitação. Mudei minha data de nascimento, de 1948 coloquei 1938. Fiquei dez anos mais velho, como se tivesse 26 anos.”

Aprendeu a importância de ter boa aparência e se candidatou a outros empregos. “As pessoas começaram a me pagar um pouco mais.” Disse que tinha levado um talão de cheques de casa antes de ir embora e que tinha algumas centenas de dólares na conta. Só que o dinheiro acabou. “Quando os cheques começaram a voltar e as pessoas começaram a pergunta por mim, eu resolvi sair de Nova York.”

Certo dia, estava na porta de um hotel quando viu aeromoças, pilotos e copilotos entrando. Foi quando percebeu como seria interessante se pudesse ter o status de um piloto de avião. “Eu pensei, é isso aí. Acho que posso ser um piloto para viajar o mundo todo de graça. Qualquer pessoa vai trocar um cheque para mim.”

Descobriu como comprar uniformes, forjou crachás e se fez de piloto da companhia Pan Am. Disse que ficava dias observando o comportamento de funcionários, para entender a rotina e lógica de funcionamento dos procedimentos.

“Eu voava em outras companhias aéreas, porque na Pan Am os funcionários perceberiam que o crachá não era exatamente igual. Eu apresentava meu crachá [no guichê das outras companhias] e eles davam passe para voar [era um benefício que existia entre as companhias aéreas].  E sentava no assento de reserva, como os pilotos adoram falar, você aprende o jargão, era sempre a mesma conversa, sempre a mesma pergunta, quanto tempo trabalha, há quantos anos, que tipo de equipamento você pilota, e estava tudo certo.”

Disse que descontava cheques de até US$ 200. Disse que ganhou muito dinheiro, mas deopis parou de fazer porque estava sendo procurado. “O FBI não conhecia a minha identidade, mas baseado na entrevista com todas as pessoas eu deveria ter uns 30 anos, mas eu tinha 18 e muito dinheiro.”

E assim foi lavando durante cinco anos. Fingiu-se de médico e chegou a fazer residência por duas semanas em um hospital. “Ninguém percebeu que eu não era médico.” Depois fez o exame da ordem, que não exigia o diploma de advocacia na época. “Passei no exame da ordem e comecei a trabalhar como procurador-geral por um ano.”

Disse que foi preso uma única vez, aos 21 anos, na França. “A polícia me prendeu com mandado da Interpol, estavam me procurando por falsificação, diziam que eu tinha falsificado cheques.” Depois, foi mandado para a Suécia e voltou aos Estados Unidos. Cumpriu quatro dos 12 anos de prisão e depois foi solto para trabalhar para ajudar o governo.

‘Se eu fosse um gênio, não precisaria burlar a lei’

“Estou celebrando 38 anos de serviço para o FBI. Eu trabalho em Washington, tenho minha casa. Sou casado, com única esposa, tenho três filhos, o mais jovem com 30 anos. O mais velho com 34 anos. Todos trabalham, estudaram. Um deles é agente do FBI na unidade contra inteligência.”

Além do filme, dirigido por Steven Spielberg, sua história também rendeu um livro e um musical da Broadway. “Recebo e-mail de pessoas de 8 a 80 anos, eles esperam que eu responda, que faça alguma afirmação. Eu não era um gênio, eu não era brilhante. Eu era apenas uma criança. Se fosse brilhante, um gênio, eu não precisaria burlar a lei para sobreviver.”

Disse que vê suas ações no passado como algo imoral e não ético. “Olho como algo imoral, não ético. Vivo com um ônus cada dia da minha vida e vou viver até morrer.”

Falou sobre a importância da família na vida das pessoas. “O mundo esta cheio de pais mas há muito poucos homens que podem ser chamados de pais pelos seus filhos. Meu pai era um homem que teve três filhos e uma filha, a cada noite ele se ajoelhava beijava cada filho e dizia, eu te amo. Não deixou de fazer isso nenhuma noite.”

Na sua opinião, disse que os filhos precisam de ter tanto a mãe quanto o pai ao lado. “Todas as crianças precisam da mãe e do pai ao lado, todas precisam ter os dois. O divórcio é uma coisa muito devastadora para uma criança saber lidar com isso. O juiz me disse para eu escolher ou minha mãe ou meu pai. E eu não tinha opção, eu fugi.”

Solidão: ‘há coisas que não se pode esquecer’

Revelou que passou momentos difíceis enquanto vivia como fraudador. “Eu passava o Dia das Mães e Dia dos Pais sozinho. Eu tinha que cuidar sozinho das minhas doenças porque eu tinha medo de um médico me achar. Eu nunca fui em festa de formatura, e eu sabia que eu seria preso, a lei nunca escapa. Eu fui preso, eu passei por lugares horríveis na prisão.”

Disse que até hoje passa momentos de silêncio, de inquietação. “Há coisas que não se pode esquecer.”

Considera-se um felizardo por viver um país onde “todo mundo tem uma segunda chance.”

“Eu devo ao meu país pela oportunidade. E por isso que estou no FBI 26 anos depois de minha obrigação legal”.

“Ser homem não tem nada a ver com dinheiro, feitos, profissões, cargos. O verdadeiro homem é fiel à sua esposa, ele coloca a esposa e os filhos como a coisa mais importante da sua vida. Spielberg fez um filme maravilho, mas não fiz nada mais compensador na minha vida do que ser um bom pai, nada fiz de melhor da minha vida do que ser um pai maravilhoso.”


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