Para suíço que viaja pelo mundo sem se fixar, ‘dinheiro não é tudo’ e o sentido da vida é ‘conectar informação’

'Você vai aprendendo que o dinheiro não é tudo'
‘Você vai aprendendo que o dinheiro não é tudo’

O suíço Beda Schmid, de 32 anos, é daquelas pessoas que se desprendem da vida que levam em seu país e se jogam no mundo para viver como viajantes – sem se fixar ou planejar um “futuro” em determinado lugar.

Eu conversei com ele em março deste ano, quando viajei pelo Nordeste. Ele trabalhava como recepcionista de um albergue na praia de Pipa, no Rio Grande do Norte.

“Tem muita gente, eu sei, que não pode viver assim. No início foi muito difícil para mim também. Não saber o que vai passar amanhã, se terei dinheiro. Mas com o tempo, a gente aqui vive bem, tem alegria, sorri, e tudo. Então você vai aprendendo que o dinheiro não é tudo, você precisa do dinheiro, mas não é tudo, sempre tem outra possibilidade.”

Com essa filosofia, ele me explicou que vive “um dia de cada vez”. Procura empregos nos albergues pela internet, fica algum tempo e troca de lugar. “Agora estou bem, e amanhã eu não sei e não me interessa na verdade.”

Ele deu início à sua jornada há aproximadamente três anos, após juntar dinheiro por dez anos trabalhando como pedreiro na Suíça. O ofício, aliás, ele escolheu porque se decepcionou com o mercado da construção naval, sua profissão de formação. “Como pedreiro eu trabalhava duro, dez, 12 horas por dia, mas pelo menos me pagavam bem”, disse.

O rapaz de cabelo raspado, tatuagem, anéis e brincos contou que chegou no Brasil ao final de 2013. Ele ficaria por aqui até vencer seu visto de turista, no começo de maio (são três meses, renováveis por mais três meses).

Se tudo deu certo nos “planos” que o europeu preferia não planejar, hoje ele está na Argentina, ou na Bolívia, ou no Uruguai, ou em qualquer outro país da América Latina – onde me disse que pretendia ficar por um tempo.

“Eu conheci muitos argentinos e tem gente na Argentina que posso visitar. Mas pode ser Uruguai, o Paraguai, a Bolívia. É seguro que se eu encontrar trabalho na Argentina vou ficar muito tempo lá. Se não, tenho que ir em outro lugar, não sei…” – ele já esteve também em outros países da Europa e América do Norte e América Central.

Beda me contou que carrega poucas coisas com ele. Uma mala pequena com duas camisetas, duas calças, “tudo de dois para poder trocar” e outros itens que ele chamou de “estupidezes”, e explicou: “são coisas pessoais que não se precisa, algo para recordar. Um diário para fazer desenhos, um anel, algo que não se precisa, mas você tem porque tem significado. E uma barraca muito pequena de dormir.”

Ele me disse que no início da viagem carregava uma mala maior, porque fez o caminho de Santiago de Compostela quando saiu da Suíça para Barcelona. “Com 1,5 mil quilômetros você precisa do saco para dormir. Mas quando cheguei na Guatemala, que é muito úmido, o saco estragou e joguei no lixo. E tudo isso [foi estragando], a mala, a jaqueta.”

‘É um jogo. Se você tem dinheiro, você gasta’
O desprendimento ele disse que adquiriu após perceber que de nada adianta ficar trabalhando para ganhar dinheiro – o que diz que é a regra estabelecida na Suíça.

“É um jogo. Se você tem dinheiro, você gasta. E diz, ‘agora preciso de mais dinheiro’, e gasta mais. Eu sempre falo que você pode ganhar o quanto for, que no fim do mês, ou no fim do ano, é o mesmo que você não ter ganhado nada. Você tem muitas coisas, apartamento, computador, mas não tem mais dinheiro. Só se você fica milionário, aí é diferente.”

O suíço explicou que sente a vida muito “engessada” na Suíça. As pessoas trabalham muito para ter as coisas, que são caras. Como ganham bem, acabam consumindo mais do que o necessário. “Eu tinha três computadores. Para que eu preciso de três computadores?”

Quando perguntei o sentido da vida, Beda me disse que tem uma filosofia que foi construindo ao longo dos últimos anos:

“O sentido da vida é conectar informação. Isso é tudo, você olha uma coisa, você pensa uma coisa, e essa conexão é o sentido da vida. Você caminha para o mundo, se você olha uma coisa, escuta uma coisa, e conecta isso na sua cabeça, quando você morre, essa informação vai a um outro lugar, onde se junta com outra informação, isso para mim é o sentido da vida. Não é essa ideia da vida depois da morte, somente essa ideia da conexão da informação.”

Para ele, a conexão das informações acontece não só com os seres humanos. “A planta, a pedra, tudo. Não tem como descobrir como e porque conectar informação, eu não sei, não se pode saber. É como fazer uma experiência a cada dia. Provar outras coisas, conectar informação e depois eu não sei o que vai se fazer com essa informação, mas eu fico seguro que não é perdida. Em algum lugar essa informação permanece e a humanidade vai crescendo com essa informação, como eu tenho informação dos meus pais, e você dos seus pais, e um vai dar informação para o outro, meus filhos e outra gente que não conheço.”

Poliglota
Beda é poliglota: fala alemão, suíço, inglês, francês, italiano, espanhol e português.

Contou que estudou na Itália quando pequeno. “Eu sei italiano desde os 2 anos de idade. Com isso aprendi muito rápido espanhol. Português é similar. Eu também sei falar francês e inglês. Alemão é como uma língua mãe. O suíço é muito similar ao alemão.”

Ele disse que definitivamente não pensa em casar e ter filhos. Contou também que não se sente sozinho ao viajar só.

“Trabalhando com turismo você não pode se sentir sozinho. Não tem essa possibilidade (…). Você faz amigos. Claro que tem dificuldades, porque você sempre vai embora e deixa o amigo novo, não tem vínculo, mas é parte da minha decisão de vida, tenho que aceitar isso. Mas também é bom porque você vai conhecer novas pessoas.”

Disse que mantém contato com a família na Suíça. Que sua mãe é quem mais sente falta e fica querendo que ele volte. “Para o meu pai é bom que eu viajo. Para o meu irmão também não é um problema. Para mim até agora também não é um problema, até agora. Se amanhã eu falar ‘eu vou para a Suíça’. Eu vou, não tem problema. Não é que eu falo que nunca volto. É que agora não quero, amanhã pode ser, talvez.”

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s