50 depoimentos depois, saiba o que especialistas dizem sobre a busca do sentido da vida

2014-06-08 01.28.33Eu completei na semana passada a publicação de 50 depoimentos sobre o sentido da vida (veja aqui), depois de quase um ano que eu comecei com o Vidaria.

Para celebrar todo esse tempo da minha vida gasto entrevistando pessoas sobre o sentido da vida, eu resolvi fazer um post tentando explicar por que eu faço esse questionamento. Também ouvi especialistas para falar sobre importância de “saber o sentido da vida”.

Por que para mim faz sentido falar sobre sentido da vida? A resposta é simples: porque eu penso nisso.

A partir do momento que esse questionamento existe dentro de mim, não faz sentido ignorá-lo – e olha que eu tentei, mas o resultado foi um incômodo maior ainda.

E foi com essa inquietação “palpitando” dentro de mim que eu comecei a fazer o blog. De lá para cá, obviamente, um furação de ideias e acontecimentos tomaram conta da minha vida. Afinal, quando você para para pensar sobre algo que não tem resposta, o risco de você ficar “lelé da cuca” é bastante alto.

Eu diria que só não fiquei louca porque tenho consciência disso (até onde sei, os loucos não sabem de sua loucura).

Para tentar entender um pouco mais sobre meus questionamentos, há alguns meses marquei uma entrevista com o filósofo e psicanalista Arthur Meucci, após eu ler seu livro “A vida que vale a pena ser vivida” (escrito junto com o professor Clóvis de Barro Filho).

Sabe o que ele me disse? Que não saber o sentido da vida é característico de pessoas depressivas ou em estado depressivo – bom, então eu tenho depressão há muito tempo, pensei (risos).

“Os depressivos às vezes têm um choque muito brutal de realidade, descobrem que a vida deles não tem nenhum sentido. O que é verdade, nesse momento, ele é mais lúcido que uma pessoa ‘normal’, porque a vida é uma droga: vou nascer, vou morrer, quero plantar uma árvore, deixar filhos para ser lembrado. Uma grande bosta, você está morto, basicamente é isso”, disse.  “O que o depressivo não tem, que não conseguiu, é o gesto criativo de transformar a vida dele na coisa que ele realmente quer, não tem capacidade de pensar uma vida boa para ele mesmo e executar isso.”

Sentido da vida para os filósofos
Meucci explicou que a existência ou não de um sentido para a vida é vista de forma muito diferente, e até antagônica, por filósofos e pensadores.

Aristóteles acredita que há um lugar para as pessoas no mundo e por isso cada um pode achar um sentido para a própria vida. Nietzsche e Schopenhauer simplesmente dizem que essa resposta não existe, não aceitam a pergunta e já a negam, de início. Porque para eles a vida simplesmente é o que é. Há também os epicuristas e estoicos: algo que está no meio, entre o otimista, como Aristóteles, e o pessimista, como Nietzsche”, disse.

20140307_125647Ele explicou que  os epicuristas, por exemplo, dão soluções como: o sentido da vida é a alegria. “Para o epicurista, sua vida será boa ou ruim quando você descobrir quais são seus desejos bons e seus desejos ruins. Para eles, a vida é a busca pela felicidade, e a felicidade é a busca pela alegria, só que a alegria não está em achar seu lugar natural no cosmos [como diz Aristóteles]. Está na possibilidade de você viver os prazeres do momento. Descobrir quais são os prazeres bons e os ruins.”

A vertente um pouco mais pessimista, afirmou, são os estoicos. “Eles não vão negar que você tenha um lugar natural no mundo, mas vão dizer que boa parte da sua felicidade tem a questão do destino, os deuses já escolheram como você vai viver, a questão é você saber, como pessoa, que existe uma tristeza e possa se prevenir.”

Afinal de contas, concluiu Meucci ao final do bate papo que tivemos, o sentido da vida é um para cada um:  “é uma coisa meio pessoal daquilo que culmina dentro de você, daquilo que você gosta de fazer, aquilo que você se sente feliz, aquilo que passa um propósito da existência. Tem pessoas que querem ser presidente da República, tem pessoas que querem ser executivo de alto escalão, tem pessoas que querem ser bombeiros, soldados, médicos, querem salvar vidas, ficar ricos com cirurgias estéticas, todas elas são válidas.”

Falou, ainda, que na falta absoluta do sentido, quanto mais as pessoas “tentam” padronizar e empurrar um sentido da vida pronto às outras, mais triste se torna a vida [para o que é empurrado]. Ele dá exemplos, como os livros de autoajuda, o nazismo, os ecologistas (que às vezes pensam que todos pensam como eles), as religiões (quando querem empurrar a crença a quem não acredita nela).

Como sentir o sentido?
A conversa com o professor Meucci aconteceu em fevereiro deste ano. É claro que, apesar de me ajudar muito, o encontro aumentou ainda mais meus questionamentos. Um belo dia, estava bastante angustiada quando um texto na internet da coach Mariana Viktor me chamou a atenção pelo título, que era: “A vida não tem sentido porque paramos de sentir” (leia aqui)

Na hora escrevi um e-mail para Mariana, com o título “E como eu sinto?”

Atenciosamente, ela me respondeu com um lindo texto, que muito me ajudou. Destaco aqui algumas frases na resposta que ela deu para mim:

“Estamos todos no mesmo ‘barco’, todos tentando achar a ponta do fio…. (até as pessoas aparentemente seguras e bem resolvidas sofrem disso). É tão difícil viver sem ter respostas, é angustiante mesmo. Mas daí, com a passagem do tempo, doendo aqui e acolá, a gente vai descobrindo pedacinhos dessa Grande Charada. Não que descobrir nos dê algum sentido. Mas vai criando pontes de compreensão. E o mais bonito nesse processo é que todas essas pontes levam para cantos dentro de nós, invariavelmente. O segredo invisível está sempre dentro da gente – o mundo fora só reflete nossos momentos internos. É um grande espelho.”

Ela disse, ainda, que todas as coisas aparentemente ruins que passamos vai nos levando cada vez para mais perto de nós. “Isso é muito individual, muito sob medida para a trajetória da gente. E, claro, além das guerras serem diferentes, nem sempre são guerras, mas outros estados emocionais, conforme a vida interior da pessoa.”

DSCN9140Ela comentou que, para “sentir”, às vezes precisamos tirar o foco somente da nossa mente – ou seja, do que pensamos. “Outras partes nossas também têm funções importantes: as sensações físicas, a intuição, o sentir sentimentos e emoções. Tudo isso trabalha feito uma orquestra mágica a nosso favor, mesmo que a gente não entenda bem o que está acontecendo quando estamos no olho do furacão. Mas aí olhamos para trás e vemos que cada furacão que passa nos aproxima mais e mais de ‘ter sentido.'”

Não conseguimos nos conectar com nós mesmos, disse, quando há tantas emoções gerando pensamentos de medo, dúvida, falta de confiança, mágoas.

“Estamos nessa vida para aprender a ser felizes a partir de dentro – os mestres de hoje vivem dizendo isso. Esse é o maior sentido da vida.  Uma vez que conseguimos ser felizes, independente do que está acontecendo fora, nos tornamos pessoas cheias de sentido – porque então tudo fará sentido. Essa é a grande mágica, o nosso grande desafio, a grande aventura de viver.”

Bom, para quem acompanha a minha “saga” diária, sabe que não é fácil para mim conviver com essa angústia. E como eu queria não tê-la. Acontece que ela existe e a minha escolha tem sido tentar “tratar”, para ver se me livro…

Como eu já previa fazer esse texto comemorativo de 50 depoimentos, eu enviei três perguntas por e-mail para a professora de psicologia da USP, Maria Júlia Kovács.

Ela resumiu tão bem as repostas que “amarrou” tudo o que está escrito acima. Para finalizar o post, copio e colo aqui o que ela escreveu:

1) Podemos avaliar que toda pessoa busca um sentido para a sua vida, mesmo que não tenha parado para pensar nisso?
Sim, as pessoas buscam este sentido de vida. Algumas pessoas buscam em outras pessoas ou em situações. Outras buscam internamente, o que é muito importante.

2) Há pessoas que não enxergam sentido algum na vida? É possível existir essa situação?
Sim, há pessoas que não encontram sentido na vida e este fato pode levar a questionamentos se vale a pena viver ou não, ou ao adoecimento.

3) É importante que as pessoas tenham sentido para suas vidas? Por quê?
Sim, pois este é o motor para a vida, como disse na resposta anterior, não ter o sentido da vida pode dificultar viver a vida.

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3 comentários

  1. Pessoal, estou passando por uma crise existencial um tanto intensa e gostaria muuuito se vocês do site me ajudassem a encontrar uma resposta que confortasse meu psicológico. Me questiono a todo tempo “qual o sentido da vida?” e não encontro nenhum. Passos noites em claro sem poder dormir devidoa esse desconforto psicológico. Grandemente agradecido desde já! 😀

    • Oi, Berg, como vai?
      Sou a autora aqui do site e te entendo perfeitamente. Eu procurei essa resposta por muito tempo. Como pode ver, entrevistei mais de 100 pessoas perguntando o sentido da vida. Eu não cheguei a uma resposta única, mas fiz um apanhado de todas as respostas e o sentido da vida parece estar nesses campos: amor, aproveitar, evoluir, família, Deus (ou uma força maior que nos mova), trabalhar e sonhar. Essa resposta foi dada de forma prática, é claro, levando em conta as respostas que colhi. Mas posso te falar uma coisa? Só você conseguirá achar o que te move no mundo, o que faz você sentir os olhos brilharem. Uma dica é ficar observando, no dia a dia, como você se sente quando faz as coisas. Quando sentir alguma sensação boa, o sentido da vida pode estar por perto. Pode ser a sensação gostosa de comer um doce, de ouvir uma música que te agrada, de abraçar um amigo ou de ver uma imagem bonita. Tente ir sentindo aos poucos e vá na direção disso. Um exemplo prático: eu sempre gostei muito de ouvir música ao vivo. Resolvi aprender a tocar um instrumento. Não é fácil, mas aos poucos as notas foram saindo e hoje em dia, quando estou meio pra baixo, tocar flauta me faz bem. Encontro um sentido em soprar e ouvir o som saindo, sabe? O mesmo vale para o trabalho. Aos poucos fui tentando perceber o que eu gostava mais e, com paciência e tapa na cara, indo em busca do que mais gosto de fazer (que é contar histórias de vida). Não desista! Por enquanto que não acha, por que não fazer do sentido da sua vida buscar por um sentido? Se a sua angústia for muito grande, não exite em buscar ajuda: de amigos, familiares ou até mesmo de um profissional. Espero que eu tenha ajudado minimamente de alguma forma… Abraços, Gabriela

      • Olá! Obrigado, Gabriela. Gostei bastante do seu Blog e vou procurar seguir seus conselhos. Muuito obrigado e até mais! 😀

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