‘Meu sentido da vida é ser um vírus do bem’, diz Banks, do hip hop paulistano

'Com o hip hop, o rap, a poesia,  a gente faz o adolescente, o jovem, pessoas de todas as faixas etárias, a usarem a massa cinzenta'', diz Banks (dir.)
‘Com o hip hop, o rap, a poesia, a gente faz o adolescente, o jovem, pessoas de todas as faixas etárias usarem a massa cinzenta”, diz Banks (dir.)

Num sábado desses, eu passava pela Avenida Paulista quando parei na Casa das Rosas para ver um recital de poesias. Ocorria um “slam”, competição entre poetas para ver quem declama a melhor poesia. Como nunca tinha participado de um evento como esses, fiquei curiosa para conhecer.

Entrei no antigo casarão da principal avenida da cidade e escolhi uma das cadeiras para sentar. Logo descobri que o evento era realizado por jovens da periferia. A maioria era da Zona Leste. Durante o recital, eles explicaram que fazem o trabalho há muito tempo – alguns grupos em estação de metrô, outros na praça, outros recitam em voz alta dentro do ônibus.

Assisti do início ao fim. Fiquei emocionada não só com o conteúdo crítico das poesias, que denunciavam a difícil realidade da periferia, como com o sentimento de revolta que os poetas passaram ao público. Para mim, cada poema recitado era um novo tapa na cara que só foi acabar (ou continuar) ao final da noite, quando entrevistei dois integrantes do hip hop paulistano que participaram do evento.

“Existe um abismo entre a academia e a realidade. E a gente preenche essa lacuna unindo os mundos. O mundo que a gente vê na periferia é um mundo que a gente não palpa, não pega, então a gente acaba vivendo em uma ilusão. A televisão, nada é feito para a gente, com a nossa cara”, afirmou Ericson Carlos Pires da Silva, de 40 anos, conhecido no mundo do hip hop como Banks.

“No ciclo capitalista você produz, consome, produz, consome. Então você vai fazendo uma geração de consumidores, ávidos por ser o primeiro, por ser o melhor, por ser o mais bonito, então tudo isso é empurrado”, sugeriu.

Para ele, é preciso abrir a mente dessa juventude guiada pelas tendências. Citou que, na periferia, são poucos os caminhos ensinados ao jovem: trabalhar como funcionário na “firma”, ser um jogador de futebol ou ser um traficante. A arte e a cultura, disse, são deixadas de lado, inacessíveis e vistas como algo que não dá dinheiro.

Com o hip hop, o rap, a poesia, a gente quebra tudo isso. Reconstrói a partir da nossa realidade. Traz o adolescente, o jovem, pessoas de todas as faixas etárias a usarem a massa cinzenta. A questionar, a mudar as realidades.”

Banks afirmou quem “demitiu” seu patrão há cerca de 20 anos e desde então vive da arte. Busca transmitir uma visão crítica aos jovens da periferia por meio da música e da cultura e também dá palestras sobre o hip hop em universidades, para professores. Reforçou, contudo, que viver de arte é muito difícil e tudo que faz é na base do escambo: troca palestras por doações. “Viver da arte e da cultura é um grande desafio, um pais desaculturado não apoia a cultura.”

Também no recital estava Lindemberg Alves Marques, de 36 anos, o “Cérebro”. As poesias dele eram de bastante revolta com o sistema atual. Depois eu descobri porque: contou que for preso por engano, injustamente, e precisou ficar quase quatro anos na prisão por um crime que nunca cometeu.

Disse que foi acusado de roubar uma mansão com um carro, só que nem sabia dirigir e no mesmo dia estava em uma festa de aniversário. “Para quem nunca tinha entrado naquele mundo, eu abracei ele, e saí pra fora com ele nos braços. Foi quando entra o hip hop para me dar esse abraço.”

Para cérebro, o que o hip hop fez com ele nenhuma igreja ou psicólogo fez, que foi dar um sentido para a vida: “o sentido da vida é poder ter sido achado dentro do hip hop”, afirmou.

E para Banks, o sentido da vida está justamente em ajudar mais pessoas, assim como ocorreu com Cérebro. “O sentido da vida é eu continuar prosperando no que estou fazendo. Quebrando cada dia um preconceito (…). É fazer da minha cultura a a minha movimentação social, a minha parte dentro da sociedade.”

Afirmou que busca ajudar o próximo não por meio da fala, ma de atitudes. ‘Trazer um progresso para o nosso meio social, mesmo que seja intelectual, não material. E com isso a gente tem incentivado milhares de jovens a ocupar as faculdades, a questionar na sala de aula, o professor, ate mesmo ser um funcionário mais ativo e participativo.”

E ao final, perguntou: “quer mais sentido que isso? A gente faz o bem, meu sentido da vida é ser um vírus do bem.”

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