O que é uma hagiografia?

Ao me debruçar nas leituras de livros sobre a vida de São Francisco de Assis para uma peregrinação na Itália percorrendo seus caminhos, chamou a minha atenção a classificação que algumas obras recebem: em vez de biografias, são chamadas de hagiografias. Assim, surgiu-me a dúvida: o que diferencia uma hagiografia de uma biografia? Fiz algumas pesquisas e escrevi este texto para explicar o que aprendi.

Basicamente, uma hagiografia é a biografia de um santo. A diferença é que, em vez de simplesmente descrever a história das vidas dos biografados, o grande intuito dessas narrativas, surgidas na Idade Média, era enaltecer suas virtudes aos fiéis, tendo em vista a grande influência da religião — sobretudo a Igreja Católica — na vida das pessoas naquele período.

“Suas vidas deveriam servir de modelo a quem almejasse a salvação divina, de acordo com o pensamento religioso medieval”, descreve a especialista no assunto Bruna Giro, em sua dissertação de mestrado sobre hagiografias chamada Hagiografia: releituras do gênero por Eça de Queiroz e Teixeira de Pascoaes, pesquisa realizada pela Faculdade de Ciências e Letras da Universidade Estadual Paulista (Unesp).

Há elementos centrais que caracterizam as hagiografias. Nelas, o santo é “o herói que tem sua força medida pela sua capacidade de transmutação da realidade e de comunicação com o mundo sobrenatural (no caso das hagiografias cristãs, com o divino). Ele mostra o caminho da virtude; é o modelo a ser seguido”, descreve a especialista. 

Na introdução da hagiografia de A vida de Francisco de Assis, escrita por Tomás de Celano, um frade católico contemporâneo ao santo que o conheceu e fez parte da Ordem dos Franciscanos, o Frei Celso Márcio Teixeira apresenta importantes distinções entre os dois gêneros literários. 

“Há uma grande diferença entre uma obra hagiográfica e uma obra histórica ou biográfica. Numa obra hagiográfica, especialmente na medieval, não se pode procurar uma história completa da pessoa segundo os moldes de uma biografia moderna. O hagiógrafo medieval não estava interessado primeiramente na história da pessoa com o máximo de informações detalhadas. Interessava-se, sim, apresentar um modelo de vida e de santidade aos fiéis”.

Teixeira diz, contudo, que Celano não se deixou determinar pelos modelos hagiográficos próprios da Idade Média e soube fornecer uma figura original de Franscisco. “O autor é consistente em apresentar Francisco e sua obra como uma novidade, ‘um homem diferente de todos os outros’, ‘um homem de outro mundo’ que, com o testemunho de sua vida e por meio de sua pregação, renovou o mundo e restabeleceu a inocência original”, descreve.

Tomás de Celano é autor de duas hagiografias sobre Francisco. A primeira delas, conhecida como Primeira Vida, a pedido do Papa Gregório IX, que queria que o santo fosse conhecido por todos os fiéis. A solicitação teria sido feita no dia 16 de julho de 1228, dia da canonização de São Francisco, ocorrida dois anos após sua morte, em 3 de outubro de 1226.


A outra, a Segunda Vida, foi redigida cerca de duas décadas depois, tendo sido concluída em 1247. Na época, sentia-se a necessidade de uma obra mais completa, que apresentasse Francisco não apenas como modelo de todos os fiéis, como consta na primeira vida, mas especificamente como modelo dos frades menores. Para isso, foram convocados todos os frades que se lembrassem de fatos e ditos ou episódios da vida cotidiana de Francisco não escritos anteriormente para uma compilação. Tomás de Celano foi o encarregado de juntar tudo no segundo livro. Os destinatários não eram os frades, diz Teixeira, mas os fiéis em geral. Segundo ele, o período histórico estava povoado de heresias e contestações e o intuito era apresentar um Francisco que soube ser modelo de fidelidade ao Evangelho e à Igreja.

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