‘Ser útil’, para uma; ‘se levantar’, para a outra

Maria Eduarda (esq.) e Campos - elas estavam sem a "seta" na hora da foto porque era intervalo de descanso.
Maria Eduarda (esq.) e Campos – elas estavam sem a “seta” na hora da foto porque era intervalo de descanso

Era domingo e Maria Eduarda, de 53 anos, e sua colega de “batente” Campos (que não quis dar o nome completo), de 47, trabalhavam numa rua perto da minha casa como divulgadoras de lançamento imobiliário – aquelas “pessoas-seta”, que ficam em pé o dia inteiro segurando uma placa que aponta para a direção do novo empreendimento.

É o trabalho que encontraram. Maria Eduarda pela idade. Campos porque está em tratamento contra dependência química – disse que já usou “tudo quanto é tipo de droga”, saiu do crack, depois foi para a cocaína. Elas ganham de R$ 30 a R$ 45 por dia. 

“Isso aqui é um bico para muita gente que não encontra emprego em outro lugar. Não exige experiência, e aqui pega qualquer tipo de pessoa, não tem aquela discriminação. Tendeu? Gordo, velho, de olhos azuis, cor de rosa, aposentado, estudante”, explicou Campos.

Maria Eduarda, além de tudo, contou que só pode trabalhar aos finais de semana. Durante a semana ela fica responsável por levar o sobrinho-neto, de 13 anos, à AACD (Associação de Assistência à Criança Deficiente). “Faltou oxigênio na hora do parto. Minha sobrinha trabalha na feira e levo ele para ela.”

No caso de Campos, o trabalho faz parte de seu novo projeto de vida. “Estou estudando, fazendo curso, me recolocando no meio da sociedade. Esse aqui é o meu meio de vida (…). É legal, melhor do que não fazer nada, ficar ‘helloou’, vendo o tempo passar. É um dinheirinho que entra para uma condução, uma mistura, e um monte de coisa.”

– E agora que acabaram de me contar tudo isso (eu estava bastante surpreendida com a história das duas), eu queria fazer uma última pergunta: qual é o sentido da vida para vocês?

“Ahh…. É uma situação melhor… Eu, para mim, estou procurando os meus objetivos, porque ainda não está tarde para eu me recuperar, ter uma vida digna. É o que eu quero, não quero ficar estacionada. É daqui para melhor. (…) Um projeto de vida, me levantar. Só porque aconteceu um fato na minha vida ruim eu vou ficar lá olhando e chorando? Eu acho que ainda estou nova”, disse Campos.

Maria Eduarda foi mais curta em sua resposta: “Estou sendo útil para meu sobrinho-neto. E não tô parada, né. É ser útil.”

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