‘Todo mundo faz tudo para ser feliz’

Edu, ao centro, no Monastério de Sonada, na Índia. Com ele estão dois Hindus (Foto: Arquivo pessoal)
Edu, ao centro, no Monastério de Sonada, na Índia. Com ele estão dois Hindus (Foto: Arquivo pessoal)

Eu nunca gostei de tomar chuva – pensa num gato em disparada fugindo das gotas quando o primeiro pingo cai do céu. Essa sou eu.

Naquela chuvosa manhã, contudo, eu cheguei para trabalhar com um sorriso de orelha a orelha no rosto, apesar dos sapatos ensopados e do guarda-chuva molhado na mão.

É que eu tinha acabado de passar duas horas conversando com o Edu – quem, aliás, eu acabara de conhecer pessoalmente.

Eu cheguei até o Edu por ele ter sido monge budista – até então, eu achava que ele ainda era monge. E eu queria saber, na visão de uma pessoa tão iluminada, qual é o sentido da vida.

“Todas as pessoas querem a mesma coisa, só que existem métodos diferentes para elas alcançarem… Hoje você trabalha, tem seu relacionamento, suas diversões, tudo para quê? (…). Todo mundo faz tudo para ser feliz. O ladrão rouba para ser feliz. A pessoa se protege do ladrão para ser feliz. Viaja, tudo para ser feliz.”

“Você conhece alguém que não quer ser feliz? Não existe…”, sugeriu, acrescentando que muitos conseguem ser felizes. “Outros não, ficam na eterna procura.”

Eduardo Martins Machado disse que sempre foi uma pessoa muito feliz, mas não entendia por quê. Aos poucos, aconteceu a compreensão da felicidade.

“Por que algumas pessoas que não têm bens materiais conseguem ser tão felizes ou mais do que as pessoas que têm bens materiais? Porque são satisfeitas na posição que estão… Isso é importante. É irracional essa compreensão e essa satisfação, mas quando você começa a ver que ser feliz atrai mais pessoas felizes ao seu redor, você começa a conviver com pessoas mais felizes. E quando você faz alguma coisa que te traz mais felicidade, isso te motiva involuntariamente a fazer cada vez mais isso, e assim vai…”

Edu revela que, recentemente, sua mãe comentou que quando ele tinha uns 10 anos, dizia logo cedo: ‘hoje nada vai me fazer ficar triste’. “Eu sempre me senti muito feliz e satisfeito com as coisas ao meu redor.”

De personal trainer com cabelo azul a monge
O processo que o levou a se tornar monge foi longo. Edu foi personal trainer e deu aulas de educação física por quase 30 anos. Diz que sempre foi “metaleiro” e, vaidoso, pintava o cabelo de azul.

Está envolvido com o budismo há aproximadamente 15 anos – período no qual visitou países como China, Índia e Nepal para estudar a filosofia. Fez um retiro espiritual em Brasília onde ficou três anos, três meses e três dias isolado, meditando praticamente o tempo todo. “Fiquei um bom período me preparando para isso, quase 10 anos.”

Mas como é ficar tanto tempo meditando? “É difícil definir [a meditação]. Na verdade é você estar presente. Você estar tão presente que consegue ver o que você está pensando, entende o que esta pensando e ao mesmo tempo entende as coisas ao seu redor… É a atenção plena do que você faz, sente e o que acontece ao seu redor. Mas na verdade é além disso, é difícil de descrever.”

Recentemente, Edu voltou a São Paulo e não é mais monge. “Quero casar, ter filhos.”

Domínio da mente
O principal fator que o levou a procurar o budismo foi o domínio da mente, além, claro, da questão da espiritualidade. Apesar de evitar uma definição, Edu citou que no budismo busca-se “evitar o mal, fazer o bem e dominar sua mente para ser feliz”.

“Você tem que ter a sua experiência como pessoa (…). O budismo te abre a cabeça, mas não para direcionar o que você vai fazer, mas para você ver o que realmente está fazendo para atingir o seu objetivo.”

Edu também falou sobre carma, que muito tem a ver com respeito. “O carma nada mais é do que o resultado de uma ação. Dentro do budismo, acreditamos muito que nós, quando morremos, a nossa mente vai para outro corpo. Então a sua mente nasce e renasce num corpo diferente inúmeras vezes. Pode ser de um humano, pode ser de um animal”. E relaciona: “quais são as possibilidades de, em alguma vida passada, você ter sido minha mãe ou eu ter sido sua mãe?”

Dessa forma, ele explica que olhando para mim como tendo sido a mãe dele numa vida passada, há o respeito mútuo. Para quem não quer acreditar em carma, que é uma visão mais “religiosa”, há ainda uma possibilidade racional e prática: “numa visão mais fria, se eu te dou respeito, o que você vai me dar em troca? É a teoria da ação e reação. Tudo que você dá, você recebe de volta. Se você está feliz, você faz as pessoas ao seu redor ficarem felizes, ai você tem o quê? Felicidade.”

Ele deu mais um motivo para respeitar os demais.

“Nós somos iguais porque queremos a mesma coisa, ser feliz (…). Aprendendo a respeitar as pessoas, você se cobra menos, se irrita menos, critica menos… E é e aquilo, tudo que vai, volta…”

Ele lembrou o significado da saudação “namastê”, que é “meu Deus interior saúda o seu Deus interior”.

Bom, ao final da conversa com Edu, confesso que fiquei com uma sensação de que ser feliz é a coisa mais fácil do mundo. É claro que a gente sabe que não é lá tão simples assim. Mas, por outro lado, pela lógica, não há como buscar fazer o bem e o outro feliz resultar em algo ruim…

E foi por isso que, mesmo com a chuva daquela manhã, eu estava tão feliz.

Confesso que custo a acreditar nessa história de que nossa mente vai para outro corpo quando a gente morre… Mas quem sabe, né, Edu?

Talvez, numa vida passada, nós fazíamos parte de um grupo de cachorrinhos vira-latas que, juntos, saíam pelas ruas até mesmo nos dias de chuva para procurar comida. Por isso a conversa foi tão boa… Namastê!

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7 comentários

  1. Roque querido,
    tenho tanta vontade de revê-lo. Desde q entrou no seu retiro, penso sempre em vc.
    O André me contou q não foi nada fácil. Tenho uma amiga q entrou no retiro de três anos
    na mesma época q vc, e acompanhei de perto o seu caminho. Sei q o seu foi ainda mais
    rígido.
    Logo devo ir a São Paulo, e vou pedir ao André para coordenar um encontro.
    Fica com meus parabéns e meu amor.
    Maria Helena

  2. “Todas as pessoas querem a mesma coisa, só que existem métodos diferentes para elas alcançarem…”
    O problema é quando a gente acha que só o caminho que a gente escolheu pra ser feliz é o correto. Eu sempre digo isso. Se tem gente que prefere ir para o Rio pela Dutra, e outros pela estrada velha Rio-Santos, é uma questão de opção. Ambas levarão ao Rio. Cada um sabe as razões pelas quais optou por aquele caminho. Mas sempre haverá alguém pra dizer que a estrada X tem mais trânsito ou que a rodovia Y é mais sinuosa e que você é teimoso por não aceitar o conselho. Enfim….
    Texto muito legal, Gabi. Parabéns!

    • Como outros, esse assunto pode se estender, mas…deixo mais a observação de que às vezes o caminho é mais ou tão interessante quanto objetivo. Eu iria primeiro pela Rio/Santos, depois, com certeza pela Dutra! Namastê.

  3. O Eduardo foi uma criança comportada, de bons sentimentos e sempre voltada à prática do bem, mesmo sem uma orientação voltada especificamente, como no budismo, para ajudar os mais necessitados. Como por exemplo, os moradores de rua. Quanto à entrevista reproduzida acima, está dentro dos princípios budistas, focando o presente, principalmente. Nossa sociedade estagia no momento, a procura da felicidade, como bem mais cubiçado. Quanto a dúvida da entrevistadora, para o caminha da nossa mente (melhor dizer nossa inteligência), é apenas uma questão de tempo. E já pode começar a fazer sua reflexão: como inteligência somos imortais. E sempre marchando rumo a evolução moral e intelectual.
    Abe

  4. Parabéns pelo texto e principalmente por ter conhecido o querido Edu.
    Tive o prazer de conhecê-lo quando criança, há cerca de 25 anos e ele já um jovem professor de natação. Te confesso que foram anos de muita felicidade e mesmo antes da experência budista, já era referência de todas as crianças. Foi o mentor de muita gente. O professor que fazia chamada oral antes da prova, que era um “carrasco” nos treinos de natação, que me influenciou no Rock and Roll, no surfe, virou meu grande amigo, celebrou meu casamento e é querido não só por mim para todos da minha família.
    Felicidade é uma decisão! Ao acordar pela manha, temos a opção de querer ou não ser feliz e querido Edu, obrigado por me ensinar sempre a tomar a decisão de querer ser feliz.
    Bem-vindo de volta à essa sociedade após os anos no retiro.
    Forte Abraço, Tiago Schleier

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