‘Não é porque a gente é travesti que a gente também não crê em Deus’

Cirs Milk não quis de jeito nenhum tirar uma foto e me passou uma que tinha do seu celular
Cris não quis de jeito nenhum tirar foto e me passou uma que gostava do seu celular.

“Eu já nasci com essa opção, eu não mudei, entendeu? Não é porque a gente é travesti que a gente também não crê em Deus. Eu creio muito em Deus, entendeu? Tem gente que fala assim: ‘Deus tem uma obra na sua vida, não sei o quê’, eles acham que a gente não crê em Deus, pelo modo deles falarem…”

Cris Milk, como se apresentou, tem 22 anos e me disse que faz programa há seis. É de Manaus e veio para São Paulo para ter mais oportunidades, ganhar mais e viajar.

Eu resolvi conversar com ela porque foi uma das primeiras pessoas que vi passar quando desci do metrô na Praça da República. Eu estava em busca de conversar com pessoas diferentes das do meu convívio… E Cris vinha andando em minha direção.

A garota de programa demorou um pouco para me responder o sentido da vida. “Sentido da vida em qual sentido, você diz?”, perguntou.

– Já parou para pensar por que a gente tá aqui, nesse mundo?

“Ah, sei lá… Como é que fala? Ah, é o que acontece mesmo, né, na vida da pessoa… Não é que ‘ah, eu virei [travesti] porque eu fiquei revoltada com minha família’. Não. Cresci desse jeito, gosto de ser assim, eu creio em Deus, a vida é boa, né… Tem que gastar, tem que curtir.”

Cris me contou que antes de fazer programa trabalhou como doméstica, em Manaus. Disse que ganhava muito pouco. “Eu fico pensando, né. Eu trabalhei como doméstica e ganhava R$ 10 por dia, ralando o dia todo, das 7h da manhã às 6h da tarde…”

Contou que “não tem estudo nenhum” e, mesmo se tivesse, não iria mais se acostumar com um salário inferior a R$ 2 mil, R$ 3 mil. “Eu não me acostumo, não. A gente vai ali, rapidinho…Não é pelo gostar, é pelo dinheiro.”

Disse que atualmente consegue ganhar cerca de R$ 5 mil por mês. “E olhe lá. Às vezes, do nada, me aparece uma pessoa boa e ela me solta mil reais… eu digo, ‘ah!’’

‘Não, não sou mulher’
A conversa com a travesti durou aproximadamente 10 minutos e foi bem divertida. Ela me contou sobre a curiosidade de clientes que a procuram, na Avenida Indianópolis, fingindo não saber que – em alguns pontos – é homem.

“Ele ainda tem aquela desculpa. Eu digo ‘não, não sou mulher’. Na Indianópolis tem mulher também. Mas eles sabem que é traveco. Aí dizem, ‘ah, então vamos lá, então”.

Ela me disse que na Rua Augusta, por sua vez, a maioria das garotas de programa são mulheres, então tem homem que confunde. “Tem uns que paga, mas não quer. Tem uns que paga, depois faz… fica naquela, só que continua. Porque a gente entra no carro, senta, fala quanto é. Aí pronto, chega lá eles: ‘ah, não, mas você não é mulher?’ Aí eu: ‘mas você não perguntou se eu era mulher ou não, pensei que você sabia..’”.

Na Europa
Cris me contou que há quatro meses visitou a Europa pela primeira vez. Foi para a Holanda, onde também trabalhou. “Lá eu não anunciava em site. Era só quando eu saía para passear e aparecia cliente.”

Como ela não sabe falar inglês, disse que era mais difícil conseguir cliente, mas saiu algumas vezes com um italiano que falava espanhol. “Para eu ir de novo só com o inglês. Vou fazer um curso de inglês.”

Disse que cobrava cerca de 50 euros pelo programa – aqui são cerca R$ 70. “Mas eles sempre dão mais depois”.

‘Muitos querem casar comigo’
Disse que é casada, não no papel, mas vive com um homem. “Ele trabalha numa lanchonete. Sabe o que eu faço, me conheceu eu trabalhando”.

Costuma ir para Manaus visitar a família e já até levou o marido para eles conhecerem. “Minha mãe gostou dele.”

A família sabe que ela é travesti, mas seu pai no começo não aceitou muito. “Minha mãe aceitou. Ela não queria que eu me vestisse 24 horas assim. Eu falei, eu não vou ficar me vestindo de homem. Eu vim para São Paulo, botei peito, voltei mais mulher e hoje ela fala que sou a filha mais feminina dela. (…). Eu tenho duas irmãs e um irmão.”

Sobre o dia a dia da profissão, me disse que nunca se sentiu humilhada. Que sempre tem sorte de sair com “gente do bem”.

“Muitos querem casar comigo, mas não adianta ficar com a pessoa só pelo dinheiro também. Tem que gostar. Já perdi muita coisa boa, mas que adianta eu passar um tempinho e depois enjoar e me mandar embora? Prefiro pegar o dinheiro dele fazendo programa…”

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