vídeo ‘Acho que o sentido da vida é dar valor em cada momento, hoje eu pecebo que desperdicei muito tempo’

Há dois anos, Josué Nogueira Ferreira, de 50 anos, ficou cego. O mecânico de manutenção disse que  nunca imaginou que um dia perderia a visão. “Nunca, jamais… (…). Vai fazer dois anos agora em dezembro. Eu sou diabético e tive uma retinopatia diabética. Fiz cirurgia e tudo, mas não…”

Ele estava parado, em pé, ao lado das catracas da estação de metrô perto da minha casa (a Santos Imigrantes, no Ipiranga), quando resolvi falar com ele.

Josué estava esperando uma amiga que passa por aquela estação diariamente. “Venho para começar a aprender a andar sozinho de novo”, explicou. Após se encontrar com a amiga, que é sua vizinha, ela volta junto com ela para casa.

Josué ficou cego há dois anos
Josué ficou cego há dois anos

Ele contou que tem dois filhos que não vivem mais com ele, mas que o auxiliam na nova empreitada. “Mora eu e minha mãe. Uma senhora de 70 anos. Ela faz dez dias fez uma cirurgia na vista também”, disse Josué, acrescentando, contudo, que a mãe tem aproximadamente 70% da visão.

Em casa o mecânico afirmou que já consegue cozinhar e se locomover sozinho, além de fazer as tarefas triviais do dia a dia. “Eu sempre gostei de cozinhar.”

Perguntei a ele sobre o que foi mais difícil de se adaptar até agora.

“Tudo é ruim, mas uma coisa que sempre gostei a vida inteira é de ler. Foi terrível, né. Agora meus filhos já me arrumaram bastante áudiobook, mas tem hora que não consigo ainda, é muito diferente.”

Depois, eu perguntei se ele tinha encontrado prazeres em coisas que antes não via. Se tinha mudado em algo após perder a visão.

Eu mudei meu modo de ser. Isso todo mundo fala. Desde meus filhos… Eu era uma pessoa muito introspectiva. Meus filhos falavam que eu era muito arrogante. Agora converso com todo mundo. Então é uma mudança. Ter paciência. Eu não tinha paciência com nada, era muito nervoso. Muito irritado…”

Depois dessa declaração, expliquei a Josué que minha real intenção era saber, na opinião dela, qual é o sentido da vida – esclarecendo que faço a mesma pergunta a várias pessoas diferentes.

“O sentido da vida? Eu acho que o sentido da vida é dar valor em cada momento. Hoje eu vejo que desperdicei muito tempo em coisas muito… Que analisando, hoje em dia, eu vejo que não tem valor nenhum. Muito em relação ao trabalho. Trabalhar muito. Muito sábado, domingo, feriado. E então acho que é isso…”

– Aproveitar mais cada dia? – reforcei.

– “Exatamente.”

O mecânico disse que não consegue trabalhar mais como mecânico. Agora aposentado, aos poucos está retomando a fazer cursos. “Passei um ano muito difícil, é muito complicado. De revolta. Agora que estou começando a andar sozinho (…). Vou fazer curso de computação, locomoção (…). Pretendo voltar a trabalhar em outra área”.

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