Aos 88 anos, ela espera que Deus a leve: ‘não tem mais nada, né?’; a vida não tem sentido sem poder trabalhar, diz

Ermelinda disse que era mais feliz quando trabalhava
Toda de rosa e arrumada, Ermelinda estava sentada no banco do parque

Ermelinda Teixeira completou 88 anos na última sexta-feira – dois dias depois de eu ter feito 28. Já fazia algum tempo que eu procurava uma “vovó” que pudesse me contar sobre sua vida. Vestida de rosa florido, ela estava sentada no banco do Parque da Independência, no Ipiranga, acompanhada do irmão e da cunhada.

A conversa aconteceu alguns dias antes de nós duas termos completado um ano a mais de vida. “Vou fazer 88 ainda, se eu chegar lá. É na sexta-feira, hoje é domingo”, observou – meu sexto sentido diz que ela “chegou lá”.

Eu comentei que meu aniversário também estava chegando e seria na quarta. “Ah, você também é de aquário? Ô raça a de aquário, as pessoas têm inveja”, sugeriu.

Os 60 anos praticamente “redondos” que Ermelinda têm a mais do que eu, fizeram, de alguma forma, eu enxergar um pouquinho do meu futuro na história dela.

A idade avançada revelava um não esperar mais nada da vida, senão a morte. Não porque a vida não tenha sido boa, mas porque chega uma hora que parece que ela já não tem muito mais a oferecer.

“Eu era feirante, trabalhava na feira. Às vezes eu tenho vontade de voltar a trabalhar e ser feliz como eu era, porque agora não sou. Você fica o dia inteiro em casa, não conversa com ninguém, todo mundo trabalha, só vem à noite (…). A vida é assim, não tem jeito, né? Corri, corri, corri para quê?”

Vida em Portugal
Ermelinda nasceu em Portugal em 1926. A mais velha de 10 irmãos. Cresceu em Cinfães do Douro, onde trabalhou na fazenda com a família. “A gente trabalhava de baixo de árvores, na lavoura. Milho, feijão, trigo, a gente tirava tudo de lá. Tinha vaca, todos os animais a gente tinha”, contou.

Aos 31 anos ela veio para o Brasil com o então namorado (casaram-se aqui dois anos depois) e mais três irmãos. “Todo mundo fugiu para as cidades porque a lavoura era bom quando tinha chuva. Mas caso vinha o calor, que secava, a gente ficava cansada, porque trabalhava e perdia tudo. Cada um foi para o seu lado, saímos ‘tudo’ para a vida.”

Na capital paulista, ela foi morar na Vila Formosa, onde trabalhou como feirante com o marido por cerca de 30 anos. Vendia ingredientes para feijoada, bacalhau e outras iguarias. “Eu trabalhei dia e noite, a feira é pesado.”

Marido mais novo foi primeiro
O marido, oito anos mais novo, morreu há 15 anos, após sofrer um acidente e cair da laje. “Eu achava que homem mais novo era melhor porque eu morria primeiro. E no final foi tudo ao contrário. Eu não queria que ele morresse primeiro (…). Não é nada como a gente pensa ou quer, é como Deus quer, já está tudo combinado, eu acho.”

Tem uma filha e dois netos. Disse que mora na casa dos fundos e tem uma campainha que toca caso precise de ajuda. Quase não tem mais forças para andar, pois sofre de reumatismo nos quadris e já passou por três para colocar prótese. “Com 52 anos eu coloquei as primeiras”. Sofre de dores. “Tem noites que não consigo dormir. Adar é difícil, fazer o quê? Essa perna está mais curta que a outra.”

‘Na minha mente era morrer trabalhando’
Não poder mais trabalhar e sair de casa é o que mais incomoda Ermelinda. Quando andava, disse que não parava em casa. Ia à missa, ao supermercado. Hoje, ocupa os dias fazendo nada. “É comer e descansar. Eu descanso sem vontade. Porque não é essa a ideia que eu tenho na minha mente, na minha mente era morrer trabalhando”.

Nem as imagens da TV ela consegue enxergar mais direito. “Eu converso com as paredes. Com o rádio, mas é verdade, faz falta… Eu tinha umas patrícias que iam lá e conversavam comigo, tomavam café. Mas ‘morreu tudo’, agora só falta eu. Mas também a minha hora está chegando.”

Talvez seja por já ter vivido tantas experiências que, num primeiro momento, Ermelinda me respondeu que, atualmente, seu sentido da vida é: “esperar a hora que Deus me leve. Não tem mais nada, né?”

– Mas e eu, que ainda tenho 28 anos, o que posso esperar?

“A vida é trabalhar bastante, ser honesta, ter bom coração para com as pessoas. Boa apresentação. Minha mãe dizia: ‘que a gente seja pobre, mas seja honrado’. Até hoje graças a deus tenho tudo cumprido, respeitar as pessoas e ser respeitado, porque se a gente não respeita, não merece respeito.”

E de repente, ela lembrou das árvores que estavam em cima da gente, no parque:

“Você vê que as árvores são tão bonitinhas? São tão maravilhosas? Nós somos criados embaixo de árvores. Elas nos dão forças e nós também pegamos as forças delas.”

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