A música na rua e o sentido da vida: ‘distribuir bons sentimentos’

artistaEu saía do trabalho apressada para casa quando, na entrada do metrô, passei por um rapaz guardando um instrumento musical e colocando a mochila nas costas.

Finalmente, tinha chegado a hora de perguntar o sentido da vida para um músico de rua. Algumas vezes aconteceu de eu estar no sentido contrário (ou seja, indo para o trabalho), e ver um deles ali fora tocando – mas estou sempre atrasada e o músico, sempre trabalhando.

A sintonia de horários fez eu descobrir que André Ladeia, de 26 anos, é artista de rua em São Paulo há um ano. Toca violino não só na frente do metrô. Já tocou nas calçadas e entre os carros, no semáforo.

Foi em Cascavel, há quatro anos, que ele decidiu que seria músico. “Um dia, andando na rua, conheci um rapaz tocando violino no calçadão. Aí a gente pegou amizade. Meu violino estava encostado. Fazia uns dois anos que eu não tocava. Daí eu gostei da ideia dele, de ficar tocando na rua, peguei meu violino e comecei a tocar junto com ele. Nunca mais parei.”

Antes, revelou que trabalhava em “empregos formais”: vendedor de eletrodomésticos, auxiliar de escritório, vendedor de produtos naturais. “Trabalhei com várias coisas até me achar com a música.”

Começou a aprender violino aos 12. Chegou a tocar em orquestras, casamentos, deixou instrumento encostado por dois anos. “Até conhecer esse rapaz. Daí por diante, comecei a trabalhar só com arte de rua.”

Banda de rua
São amigos até hoje. Os dois, junto com outros músicos que se conheceram na rua, montaram uma banda, a Teko Porã. “Eu vim para são Paulo, fui morar na casa que ele mora e a gente criou uma banda juntos só de artistas de ruas. Nós nos conhecemos todos na rua, no dia a dia.”

Entre os instrumentos da banda estão o violino, violão, bandolim, acordeão, violoncelo, viola erudita. “Forma um mix”, disse.

Apesar de terem se conhecido na rua, disse que a banda já começou a tocar em locais fechados, como no Sesc. “A gente vem da rua e nossa raiz é a rua, a gente procura manter isso. Mas não é que a gente só vai tocar o resto da vida na rua. A gente toca, mas estamos trilhando uma carreira de banda mesmo, mas a rua sempre vai fazer parte da nossa vida.”

Às vezes faz trabalhos com esculturas, mas basicamente vive só da renda de músico. “Dá para sobreviver. Não dá para viver com muita regalia, mas se trabalhar certinho dá para pagar o aluguel. Tem que trabalhar todo dia como num emprego qualquer.”

Distribuir bons sentimentos
Quando perguntei a André sobre o sentido da vida, ele me disse que tinha pensado muito no assunto na última semana. “Para mim, acho que o sentido da vida é usar o que eu faço primeiramente para mim, mas principalmente para espalhar para as outras pessoas. É como se eu pegasse uma semente, plantasse e depois distribuísse para os demais, é o que eu vivo , é o que eu faço”.

Disse que o sentido de fazer seu trabalho, nas ruas, é multiplicar bons sentimentos e boas coisas. “Acho que esse para mim é o sentido da minha vida, o coletivo.”

– Com a música você acha que faz esse coletivo acontecer?

“Sim, é o que eu faço. Se eu fizesse música só para mim seria muito ‘egóico’. Principalmente quando alguém fala que gostou e fez a diferença. (…) Acho que é isso, distribuir, plantar, colher e multiplicar.”

– E o que você acredita que distribui quando toca?

“Eu acredito que quando estou tocando eu distribuo sentimento. A música, quando eu faço, ela me toca. Ela faz algo internamente comigo e eu faço isso transcender na minha música, passando isso para frente. Como se fosse uma corrente do bem, você recebe e passa para a frente.”

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