‘Dormir à noite seguro, não importa onde e nem por quanto tempo, com minha família’, diz refugiado sírio no Brasil, sobre o sentido da vida

Miguel Soufan está no Brasil desde dezembro
Miguel Soufan está no Brasil desde dezembro

“Dormir à noite seguro, não importa onde e nem por quanto tempo, com a minha família”, disse-me calmamente o sírio Miguel Soufan, de 27 anos, refugiado no Brasil, após eu perguntar a ele o sentido da vida – a resposta ele deu ao final de uma hora de conversa com ele já arriscando seu mais novo idioma, o português.

O engenheiro de telecomunicações está no Brasil desde dezembro. Ele conseguiu o visto para entrar no país após tentar outras 14 embaixadas, sem sucesso, no final do ano passado.

A conversa que eu tive com ele foi, inclusive, sugestão da minha colega Flávia Mantovani, que fez uma série de reportagens sobre os refugiados sírios no Brasil para o G1 (veja aqui).

Miguel deixou a Síria em 2011, depois de se envolver nos protestos que deram início à revolução no país. Desde então, nunca mais viu seus pais. “Sinto muitas saudades. Eu gostaria que minha mãe e meu pai viessem morar comigo aqui. É melhor. Faz três anos que eu não vejo minha mãe e meu pai, sinto saudades”, disse.

O único contato que tem com os familiares é por telefone, quando seus pais ligam para ele. “Porque é difícil na Síria por causa da guerra, eu não posso simplesmente ligar para eles. Eles sabem onde estou e me ligam uma vez a cada duas semanas, três semanas, depende.”

Seu primeiro destino após sair da Síria foi a casa de parentes no Líbano. Na época, ele trabalhava para a TV estatal síria e foram seus pais que o aconselharam a deixar o país. “Eu trabalhava para o governo e participei dos protestos. Era ‘problema’”, disse.

Depois foi para a Malásia, onde ficou até o final do ano passado, quando venceu seu visto para estudar no país. Impossibilitado de retornar à Síria, tomada pela guerra civil, ele precisou encontrar outro lugar para viver.

Tentou embaixadas como os Estados Unidos, Inglaterra, Austrália, França, Chile e Argentina. Em algumas o processo para tirar o visto era muito burocrático, outras solicitavam quantias que ele não tinha e, em outras, os atendentes não foram atenciosos o suficiente – na França, por exemplo, ele disse que o funcionário começou a falar francês assim que ele disse ser sírio.

“No Brasil, em três horas eu tenho meu visto”, contou Miguel, com um sorriso no rosto e um português esforçado, de quem faz três aulas por semana para melhorar o idioma o quanto antes. “A funcionária foi ótima, eu nunca vou esquecê-la”, disse.

‘Preciso me juntar a eles’
Miguel contou que foi sem pensar muito que se juntou aos revolucionários no país. “Quando a revolução começou, as pessoas não acreditavam. Falavam ‘isso na Síria? Não existe. Não pode. Não como a mídia internacional fala’. Os sírios falavam ‘não tem revolução, não tem protesto, não tem nada, é tudo propaganda, Photoshop’. A TV dizia que todo o resto estava mentindo, o jornal sírio todo tempo falava isso, eu acreditava bastante.”

Certo dia, estava dentro de uma van quando viu com os próprios olhos centenas de pessoas protestando. “Quando vi todas aquelas pessoas, apenas abri a porta da van que eu estava e me juntei a elas. Todas as pessoas pedindo liberdade, um país melhor, uma Síria melhor”, disse. “Eu não posso descrever o pensamento, vi as pessoas gritando na rua, pensei, ‘preciso me juntar a eles’. Eu estava feliz. Me senti um homem novo.”

Enquanto viveu na Malásia, disse que se envolveu com uma organização para enviar mantimentos de ajudar aos sírios, como com doações de leite para crianças, cobertores para o inverno, remédios e alimentos.

“Também em todo o tempo eu estava protestando contra o governo da síria na Malásia. Em frente à embaixada da síria. Tentei remover a bandeira do governo sírio duas vezes, mas não consegui.”

Aprendizado
Bastante simpático e calmo, Miguel disse que aprendeu muito convivendo com pessoas diferentes na Malásia. “Eu aprendi a ficar calmo. Eu estava com diferentes tipos de pessoas, algumas nervosas, outras educadas…”. Afirmou que também aprendeu a respeitar as diferentes culturas e tradições. “Conheci muitas pessoas da Rússia, Cazaquistão, Camboja, Austrália, Indonésia, Inglaterra, comunidade árabe, Argentina… Minha mente mudou muito.”

Nas 26 horas de voo a caminho do Brasil, disse que misturava dois sentimentos: “eu estava excitado por uma nova vida, mas assustado. Eu estava assustado por duas coisas, eu não conhecia ninguém aqui, eu não tinha nenhum endereço, nenhum número de telefone. E estava preocupado de no aeroporto não deixarem eu entrar no país”.

Mas deu tudo certo. “Eu cheguei no aeroporto, o funcionário pediu o passaporte, disse, ‘Síria?’. ‘Sim’, eu respondi. E carimbou e ‘bem-vindo!’”

Desde então, Miguel fez contato com a comunidade árabe no Brasil e procurou ajuda para aprender mais sobre a cultura do país – já comeu até feijoada, e gostou. Disse estar excitado pela nova vida em solo tupiniquim. Tem feito entrevistas de emprego e vai até pedir a residência no Brasil.

Criado por uma mãe católica e um pai muçulmano, disse que tem respeito pelas diferentes culturas e não concorda com a visão de que a comunidade árabe precisa ficar ‘isolada’ da cultura e tradição brasileira.

Durante a conversa, eu perguntei ao Miguel o que veio na cabeça dele quando chegou, sozinho, no Brasil. “Eu não sei. Somente entrei. Pensei ‘nova vida, nova aventura’”.

Tomara que a aventura seja boa. Bem-vindo, Miguel!

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