‘Todos podemos inventar um modo de vida’, diz filósofo cujo sentido da existência é ‘provocar o pensamento’

'É acreditar nos encontros que a gente tem nossa vida. É isso, a gente vai criando o nosso sentido', diz Amauri
‘É acreditar nos encontros que a gente tem nossa vida. É isso, a gente vai criando o nosso sentido’, diz Amauri

“Todos nós podemos inventar um modo de vida. E para isso a gente tem que buscar ou então afirmar ao máximo que a gente pode aquilo que mais nos move.’

A conclusão é do filósofo Amauri Ferreira, de 37 anos, que dá o conselho por experiência pessoal. Há 8 anos ele vive satisfeito como escritor e professor de cursos livres de filosofia em São Paulo. Mas não foi sempre assim: antes, trabalhou infeliz em banco e seguradora e fez uma faculdade que só descobriu que não gostava depois de já ter começado.

Eu o conheci numa palestra dele sobre Friedrich Nietzsche e, de uma forma bem resumida, saí de lá instigada “em acreditar em mim mesma.”

Gostei tanto do que falou que o procurei para apresentar meu blog. Marcamos uma entrevista e descobri que o sentimento despertado em mim é justamente o que o move: estimular o autoconhecimento nas pessoas por meio da filosofia.

Para ele, o “sentido da vida” é “provocar o pensamento, uma a maneira de sentir de outro jeito”, disse. “É importante ter a ressonância daquilo que você faz. Ver a que a pessoa se nutriu daquilo que você doou para ela. Ver os olhos brilhando, isso é muito bonito.”

Formado em relações públicas, no começo do curso descobriu que gostava mesmo era de filosofia. Decidiu terminar a graduação para conseguir um diploma e fazer mestrado na área de filosofia.

A escola da vida, contudo, mostrou outro caminho para ele: aprendeu filosofia sozinho, com muita leitura e em cursos livres, desistiu da vida acadêmica e criou seus próprios cursos – ele dá aula em espaços culturais e livrarias. “A ideia de curso livre é legal porque não precisa ter pré-requisito. Qualquer um pode fazer”, afirmou. “Se isso mudou minha vida, talvez eu possa mudar a vida de muita gente dando as aulas. Isso foi vital para mim e pensei que precisa ser disseminado.”

Primeiras leituras
Os primeiros pensadores que leu foram apresentados na aula de teoria da comunicação no primeiro ano da faculdade. “Comecei a ler os filósofos da Escola de Frankfurt, que criaram o conceito da indústria cultural (…), como Theodor Adorno, Walter Benjamin. Foi a primeira vez na vida que li um texto de filosofia, até então não tinha lido nada”, revelou.

Mas é em Friedrich Nietzsche que Amauri atribui a “primeira grande mudança de sua vida”: “Ninguém provocou em mim a mudança que ele provocou, mesmo eu não entendendo 90% do que ele dizia na época. Eu não entendia tudo mas era uma coisa que chamava para você não ter vergonha de pensar por si mesmo. Ele me instigava a poder viver do meu jeito.”

As leituras de Nietzsche começaram um pouco depois de ele “descobrir” a filosofia. No começo da faculdade, como percebeu que não daria seguimento à carreira de relações públicas, gastava todo o tempo livre que tinha para ler. “Lia nas horas vagas, entrava na aula para responder presença, saía e ia para a biblioteca. Lia no metrô para não desperdiçar meu tempo livre. Era estudar, estudar, estudar.”

Sentia-se sozinho por não encontrar pessoas para compartilhar seus conhecimentos adquiridos. “Eu me sentia sozinho na faculdade, porque as pessoas estavam interessadas nas aulas do curso e eu estava interessado em concluir porque meu interesse era em dar aula, fazer mestrado, seguir uma carreira acadêmica. As pessoas me achavam estranho, com livro de filosofia debaixo do braço.”

‘Grandes encontros’
Amauri disse que aos poucos foram acontecendo outros “grandes encontros” em sua vida. O primeiro foi com um professor de um curso extracurricular na faculdade, do qual se tornou amigo e “sugou” muito conhecimento.

Posteriormente, esse professor o apresentou a outro professor. Os dois “mestres” davam cursos livres de filosofia que Amauri frequentou por anos e disse que foram muito importantes para o estimular em seus próprios cursos. “Se eu não tivesse conhecido os professores, talvez eu estivesse infeliz, fazendo o que todo mundo faz. É acreditar nos encontros que a gente tem na nossa vida. É isso, a gente vai criando o nosso sentido. Eu não estava destinado isso, o sentido foi sendo criado, na medida em que tive os encontros com certas pessoas.”

O primeiro curso aconteceu em 2006, após ele participar de uma palestra em um centro cultural e receber um convite da responsável pelo local. “Ela falou, ‘a gente precisa de alguém para dar filosofia’. Marcamos uma palestra sobre Nietzsche. Foi a primeira vez na vida que eu dei uma aula. Sabe quando acaba e você fala ‘é isso que eu quero para a minha vida?’. Eu percebi pelo olhar das pessoas.” Após dar a palestra, ele montou o primeiro curso próprio, que deu no mesmo centro cultural.

Ao mesmo tempo, mantinha o emprego burocrático no banco, porque precisava da renda para pagar as contas. Ao todo, ele trabalhou por um ano em uma seguradora e seis anos no banco. Conseguiu sair da instituição financeira em 2007. Com o dinheiro da rescisão, manteve-se por algum tempo até estruturar seus cursos livres.

“Quando eu saí do banco, estava dando aula há pouco mais de um ano. Fiz as contas, com o dinheiro [da rescisão] eu conseguiria me manter por dois anos e pensei, ‘é o seguinte, depende só de mim’. Aí eu mergulhei ainda mais na filosofia, eu participava dos grupos de estudos livres, cursos e, paralelamente, eu dava curso também.”

Aos poucos, as aulas foram aparecendo, por meio do relacionamento e do “boca a boca”.  Hoje tem também quatro livros escritos e dois publicados: “Introdução à filosofia de Nietzsche” e “Introdução à filosofia de Spinoza”.

“As coisas foram acontecendo no contágio, no afeto, no relacional, sem um ideal, no risco. Até falo para as pessoas que se amanhã eu quebrar a perna, não vou ter como dar curso e vou ficar sem pagar as minhas contas”, admitiu.

‘Vem gente de tudo quanto é tipo’
Disse que chegou um ponto que ele não estava mais preocupado em seguir as vias legitimas, de fazer mestrado, e dar curso na academia. Revelou que encontrou a liberdade que procurava nos cursos livres. “É interessante porque vem gente de tudo quanto é tipo, gente da academia, advogado, gente desempregada. Não precisa ter lido nada (…). As pessoas saem alimentadas, e isso é muito gratificante.”

Ao final da conversa que tive com Amauri, ele fez questão de mencionar que o interesse com a entrevista era usar seu próprio exemplo para estimular outras pessoas.

“É mais para despertar isso, de acordo com a realidade da pessoa, despertar no mínimo um questionamento. Porque o que você vê na grande mídia é todo mundo querendo fazer conforme o script, você estuda para poder ter o diploma, aí você vai para o mercado de trabalho, aí você trabalha, casa e tem filho, aí você se aposenta, aí você vai passar os mesmos valores aos seus filhos. E se você encontra pessoas que quebraram esse script e inventam uma maneira singular de existir, é um estimulo para você pensar, eu também posso.”

Aliás, quem ficou interessado nos cursos dele, pode saber mais aqui: www.amauriferreira.com

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2 comentários

  1. Não gosto. Assisti a participação dele em um evento que falava sobre direitos animais e sinceramente…aliás não sei bem por que estava ali.

  2. Boa matéria! O Amauri manda muito! (e dificilmente dá entrevistas!). Eu acabei de fazer com ele um curso sobre Nietzsche (Assim Falou Zaratustra) e as discussões foram ótimas! Quem bom ver que a filosofia o mudou tanto, porque muda muito também quem frequenta seus cursos!

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