Ela abandonou o jornalismo e virou artesã para seguir o que acredita: ‘viver plenamente cada instante, com amor, carinho e gratidão’

'O sentido da vida é agradecer a Deus pela nossa existência, agradecer por cada ser que passa pelo nossa vida, por cada aprendizado, por cada batalha, por cada experiência', diz Fernanda
‘O sentido da vida é agradecer a Deus pela nossa existência, agradecer por cada ser que passa pela nossa vida, por cada aprendizado, por cada batalha, por cada experiência’, diz Fernanda (Foto: Arquivo Pessoal)

Como grande parte dos jornalistas, Fernanda Borges da Silva, de 33 anos, entrou na faculdade com o sonho de mudar o mundo. Como praticamente todos, percebeu que concretizá-lo é impossível. Como poucos, resolveu mudar de vida para seguir o que acredita de verdade. Há alguns meses, abandonou o emprego que tinha como jornalista e hoje é artesã. Vende camisetas e botons com mensagens que levam à reflexão sobre a atual forma de viver da sociedade.

“Hoje eu vivo o que sempre acreditei: que precisamos de muito pouco para viver e que muito do que já está posto para todos nós no mundo nos basta, principalmente buscar ser feliz.”

Diz que nunca sonhou em ganhar muito dinheiro. “Eu queria mesmo era mudar o mundo. Iludida, descobri que depois que você entra de verdade no jornalismo e conhece os bastidores de uma redação, a decepção é muito grande, principalmente para alguém que sempre foi sonhadora como eu.”

Uma das realidades que incomoda Fernanda é a vida consumista que as pessoas vivem atualmente, a falta de respeito com o meio ambiente, com a natureza, com os animais. “A falta de alegrias por meio de vidas mais simples”, diz.

‘Quando sabemos quem realmente somos, tudo se torna mais fácil’
Fernanda me disse que sempre parou para pensar no sentido na vida e sempre questionou muito sobre o porquê de nossa existência. “Creio que quando sabemos quem realmente somos, quando nos conhecemos verdadeiramente e sentimos qual é nosso papel na Terra, tudo se torna mais fácil e tudo passa a fazer mais sentido. É preciso que as pessoas pensem mais sobre a vida.” afirma.

Para ela, o sentido da vida é “saborear o aqui e agora. Viver plenamente cada instante, com amor, carinho, gratidão. O sentido da vida para mim é agradecer a Deus pela nossa existência, agradecer por cada ser que passa pelo nossa vida, por cada aprendizado, por cada batalha, por cada experiência”, diz. “É estar disponível para o próximo que precisa de você nas coisas mas simples. Um sorriso, uma palavra bonita, um incentivo, um apoio. Viver com verdade, sinceridade, ser o seu melhor naquilo que você ama e acredita, doar-se, respeitar a vida, os reses, a natureza.”

Na opinião dela, é preciso que as pessoas pensem mais sobre a vida “para não se permitir deixar essa preciosidade que ela é passar por entre os dedos e não aproveitar e saborear o melhor dela”. Esse melhor, na opinião dela, é: “o aprendizado, o amor, a doação ao próximo, a gratidão.”

Fernanda aprendeu a fazer camisetas com seu namorado, Luciano Bueno
Fernanda aprendeu a fazer camisetas com seu namorado, Luciano Bueno

‘O jornalismo me trouxe mais tristezas que alegrias’
A jornalista revela que sempre gostou de escrever e decidiu fazer jornalismo ainda adolescente. A ideia era trabalhar em jornal impresso, moradora do Paraná, acabou indo para a TV sete anos depois de formada, na RPC TV (afiliada da Rede Globo no estado). Antes, trabalhou no jornal “Folha de Londrina”.

A decepção com o jornalismo foi ocorrendo aos poucos. “Costumo dizer que, infelizmente, o jornalismo me trouxe mais tristezas do que alegrias.”

Levou de dois a três meses para criar coragem e pedir as contas de uma vez, o que aconteceu em março deste ano. “Foram os meses mais difíceis para trabalhar, porque quando senti em meu coração que eu já não queria mesmo aquilo, ir trabalhar havia se tornado um fardo.”

Entre o que não gostava, cita ter que “forçar” um entrevistado a contar uma história para conseguir uma reportagem, casos de corrupção e sujeira política nos bastidores da notícia, além de discordar com os interesses do jornal. “Claro que compreendo que a imparcialidade não existe nunca, mas a opinião do dono do jornal sempre vai prevalecer. E quando a opinião e ideia dele não ‘batem’ com as suas, o melhor mesmo é sair.”

‘Escolhi abandonar tudo e pegar a estrada com ele’
Ao mesmo tempo, conheceu o assistente social Luciano Bueno, que hoje é seu namorado, que tinha uma vida que a atraiu. Há dois anos, ele também abandonara o emprego na Prefeitura de São Paulo e trabalhava com a produção das camisetas e botons com mensagens críticas com relação à industria cultural, ao consumismo e ao capitalismo, conta Fernanda.

“Eu já não sabia se estava mais apaixonada por ele ou pela vida dele (…). Eu simplesmente escolhi abandonar tudo e pegar a estrada com ele. A vida dele, na minha visão, fazia muito mais sentido do que a minha. Percebi que ele fazia algo que acreditava e eu senti que realmente não acreditava em mais nada do que fazia.”

Fernanda não tinha mais escolha: “para não ser uma pessoa falsa com o que eu sentia em meu coração, pedi as contas e fui ajudá-lo.”

Diz que foi muito fácil aprender a fazer os botons e pintar as camisetas, “até mesmo porque a vontade de mudar de vida era muito grande”.

Juntos, trabalham em feiras e eventos sociais. Para os interessados, o material que produzem tem uma página no Facebook, a Viver Utopia (acesse aqui).

‘A vida em si é muito mais valiosa que o dinheiro, o estresse’
Além dos ideais políticos, ela conta que a questão espiritual também a motivou. Relata que sempre foi espírita e passou por uma experiencia importante em uma viagem à Minas Gerais, na Casa de Chico Xavier. “Voltei da viagem com uma sensação muito forte de transformação. Percebi que a vida em si é muito mais valiosa do que o dinheiro, o estresse, a falta de tempo para os amigos, para as famílias, para a natureza, para tudo o que é de mais importante, na minha visão hoje.”

Ela faz meditação e frequenta casas espiritualistas. “Acredito sempre que a nossa passagem aqui pela Terra é passageira e que as coisas materiais são passageiras. O segredo é a gente não se apegar tanto nisso.”

Vida nova
É claro que ela diz que sua vida mudou muito após largar o emprego. Disse que morava sozinha, hoje divide as despesas com o namorado. Era apaixonada por esportes, fazia trilhas e gastava bastante dinheiro com materiais esportivos e viagens. “Abandonei o esporte porque não tenho mais condição alguma de bancar com avida que eu levava (…). Hoje faço caminhadas às vezes, mas nunca mais comprei um par de tênis e doei minhas roupas esportivas.”

Fernanda conta, contudo, que não sente tanta falta do esporte porque a alegria que sente com a vida que leva parece “preencher a endorfina” que conseguia com o esporte. Diz que emagreceu por causa da ausência de estresse e que hoje leva uma vida muito mais tranquila, sem a correria do ponteiro do relógio.

“A questão financeira me preocupa um pouco, confesso, mas acho que é uma questão de tempo. A alegria dos meus dias não tem preço e eu tenho cada vez mais certeza de que não quero mais a dependência de ‘ter que ter’ dinheiro. Quero me desapegar cada vez mais porque acredito que quando acreditamos na vida, ela acontece com tudo aquilo que verdadeiramente precisamos”, relata. “Vender um material como, por exemplo, uma camiseta com mensagens do Gandhi para um menino de 13 anos que acredita nos propósitos do líder indiano me faz feliz.”

E hoje, na verdade, quem está feliz sou eu por Fernanda ter aceitado participar e contar sua sincera e corajosa história de amor à vida.

Obrigada Fernanda!

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