Músico quer a valorização do samba paulista e tem como sentido da vida ‘lutar pela igualdade dos direitos’

'Sou o Robin Hood de mim mesmo, que fui desfavorecido', diz Renato dias
‘Eu não tenho vergonha nenhuma, sou o Robin Hood, eu tiro do rico e dou para mim, o pobre que sou eu mesmo’, diz Renato dias

O músico Renato Dias, de 43 anos, sempre lutou pela valorização da cultura negra em São Paulo. Faz isso desde 2002 por meio do samba, divulgando sambistas paulistas em rodas e cordões carnavalescos da capital com o grêmio “Kolombolo Diá Piratininga”. No passado, porém, já fez o mesmo com o rap. Foi um dos fundadores do grupo “Sinhô Preto Velho”, que resgatava as raízes da umbanda e do candomblé nas letras e músicas.

Mas Renato não se contenta só em ser artista. Precisa divulgar a história dos sambistas a quem não conhece, dar aulas de pandeiro a quem quer aprender. Denunciar a desigualdade racial no país. “Eu não acredito mais no artista que não é artista cidadão, que não faça o melhor que está à sua volta, na sociedade.”

Criado na periferia da cidade, voltou para o bairro onde cresceu, a Vila Medeiros, na Zona Norte, para fazer sua parte. Ensina e promove o samba paulista na comunidade por meio do cordão carnavalesco “Corpo Fechado”. É uma tentativa de mostrar um caminho diferente aos jovens, em um bairro onde entrar para o crime às vezes é a primeira opção que aparece, disse.

“Quando a gente luta pela questão de cotas, é uma reparação histórica, não que a gente está de coitadinho, a cota é simbólica. Queremos muito mais do que isso, é a reparação do etnocídio (…). Eu não tenho vergonha nenhuma, eu sou ‘Robin Hood’, eu tiro do rico e dou para mim, o pobre que sou eu mesmo.”

Amizade à primeira vista
Paulistano com orgulho, Renato é daquelas pessoas que a gente acaba de conhecer e no minuto seguinte fica com a impressão que já era amigo dele há anos. Talvez ele tenha mesmo o dom da amizade. Aquele tipo de amigo despretensioso, que oferece sorrisos sabendo que sorrirá de volta quem gosta de sorrir.

Eu o conheci por meio de uma amiga que frequenta as rodas de samba do Kolombolo. Ela me “chamou pro samba” e logo que vi o Renato foi assim, uma amizade à primeira vista.

O interesse dele em divulgar a cultura paulista por meio do samba fica óbvio logo de cara. Nas rodas, antes de cada canção Renato apresenta os compositores a quem não conhece. Oferece aulas gratuitas de pandeiro ou de história do samba paulista com a mesma naturalidade que oferecemos uma xícara de café a uma visita em casa – mas ele também oferece só o café, para quem preferir.

Eu aceitei o convite para a aula de pandeiro e, de quebra, aproveitei o encontro para ouvir a história de como ele resolveu ser um divulgador da cultura e do samba paulista.

A estima do paulista é la embaixo. Ele fala do trânsito, da fila, mas nunca fala do lado positivo. Qualquer cidade grande, metrópole, tem seus problemas. Mas o paulista não fala das coisas boas da sua cidade.”

Renato avalia que 90% dos próprios sambistas de São Paulo tocam samba carioca por desconhecimento do que é produzido na própria cidade. “Isso eu estou falando dos sambistas, agora imagina a sociedade do Estado de São Paulo, 98% não deve conhecer a cultura do samba. E São Paulo sempre foi colocado como um consumidor de cultura, como se não tivesse cultura. Esse é processo que queremos inverter.”

Quem vai às rodas de samba promovidas pelo Kolombolo descobre uma infinidade de sambistas paulistas que vão muito além de Adoniran Barbosa. Renato faz uma “chamada oral” para os novatos gravarem os nomes. A brincadeira funcionou comigo, entre os que eu mesma decorei estão Zé Maria, Toniquinho Batuqueiro e Talismã.

Raiz negra
Ele diz que o interesse em valorizar a cultura negra vem de suas raízes. Ele é filho migrantes em São Paulo – um mineiro branco que se apaixonou por uma baiana negra. Sou avô paterno trabalhava nas minas da Chapada Diamantina e foi tentar a vida em São Paulo após achar uma pedra de diamante.

Renato teve uma infância simples e, como muitos jovens da periferia, sonhava em ser jogador de futebol ou músico. Chegou a tentar a carreira como jogador, mas ainda adolescente descobriu que gostava mesmo era de música.

Disse que sempre foi desafinado para cantar e no rap encontrou uma “salvação” – tendo em vista que as música são quase “faladas’. No final da década de 1980 começou a frequentar encontros de hip hop na Praça Roosevelt, no centro da cidade, e nunca mais se afastou da música. É claro que trabalhou em empregos burocráticos antes por muitos anos – além da família simples, é pai de gêmeos e tinha compromissos financeiros a cumprir.

E para ele, o sentido da vida nada mais é do que lutar pela igualdade dos direitos a todos. “No meu caso, nessa passagem em que nós estamos, é lutar pelos direitos. Eu fui um desfavorecido (…). É diminuir um pouco essa diferença. Então, o sentido para mim nesta vida é através da cultura e da arte, lutar pela igualdade social, é uma coisa que eu não sei explicar.”

Ele diz nessa passagem porque segue o candomblé e acredita em reencarnação. Contou que se identificou mais com a crença apesar de frequentar terreiros de umbanda desde criança – uma tia-avó tem, inclusive, um terreiro.

O sentido da vida de Renato, contudo, seria outro caso as coisas fossem niveladas para todos, se estivesse “tudo certo”, disse.

“No fundo, a gente luta pela igualdade financeira porque não é justo que uns tenham direitos a alguns bens e outros não. Mas para todo mundo ter esse mesmo nível e um dia sacar também que o mais bacana não é ter carro zero, apartamento. A coisa mais legal que tem é tomar um cafezinho, ter uma vida tranquila, bater um papo com os amigos. A gente às vezes vai muito longe e a riqueza da nossa vida está nisso. Para mim esse é o grande sentido da vida, tomar um cafezinho, bater um papo com os amigos e ser feliz.”

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Um comentário

  1. Salve guerreiro de fé salve vagabundo do lodo assim que é renascendo das cinzas, porque até no lixão nasce flor.

    Att Sidnei Paixão Antunes.
    O marginal sempre marginalizado, formado em marginologia um marginal de primeirakkkk.

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