Dona Maria sustentou 12 filhos com o garimpo de cristal na Chapada dos Veadeiros; ‘tudo é Deus, a gente vive por causa Dele’

'Eu cavava no garimpo. Descia buraco que tinha vez que não era todo homem que tinha coragem de descer lá dentro, não.'
‘Eu cavava no garimpo. Descia buraco que tinha vez que não era todo homem que tinha coragem de descer lá dentro, não’, disse dona Maria

Aos 88 anos, dona Maria da Conceição “não tem arrependimento de nada nesta vida, não, graças a Deus”. Nunca teve briga ou “malquerência” com ninguém e se orgulha de ter criado os filhos “na educação, para não mexerem em nada que é dos outros”.

Nascida no interior goiano, na cidade de Sítio d’Abadia, foi levada aos dez anos para a Vila de São Jorge, na Chapada dos Veadeiros, também em Goiás. “Tô aqui até hoje.”

A região atualmente atrai turistas do mundo todo, famosa pelas belíssimas cachoeiras, mas o que levou famílias humildes como a de dona Maria ao local no passado era o garimpo de cristal, hoje proibido pelo governo.

Nas mesmas trilhas que hoje servem de contemplação para os olhos dos que visitam aquelas terras por lazer, Maria já cavou muito buraco. Com a pá e a picareta nas mãos, buscava as pedras que garantiriam o sustento de 12 crianças – seis filhos e seis enteados – após a morte do marido.

“Eu cavava no garimpo. Descia buraco que tinha vez que não era todo homem que tinha coragem de descer lá dentro, não. Era buraco fundo. (…). Andei essas ‘cachoeirona’ tudo. Essa cachoeirona grande que tem lá no parque, eu trabalhava do lado dela, na frente da cachoeira escorrendo a água.”

Quando dona Maria mencionou a “cachoeirona”, eu sabia muito bem do que ela estava falando. Eu tinha acabado de voltar do Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros e visto o espetáculo da linda queda d´água de 120 metros de altura. Foi um morador da vila que sugeriu que eu conversasse com ela após eu perguntar por alguém que tinha trabalhado nas minas da região.

Com a fala tranquila, dona Maria conversou comigo sendo interrompida vez e outra para dar um “bença, boa sorte” para adultos e crianças que pediam a benção ao vê-la na frente de casa. “É tudo grudado em mim. Me ‘agruda’ que falta me derrubar.”

Maria contou que “foi criada sem mãe” em Sítio d’Abadia até os dez anos. “Minha mãe, no parto dela, veio a falecer e eu fiquei mais meu pai.”

Até que uma moradora da Vila de São Jorge a viu em um casamento e pediu ao pai de Maria para ficar com ela. “Era uma conhecida de meu pai e pediu para ele deixar eu ficar com ela aqui para eu ajudar a cuidar das crianças. Foi ela quem acabou de me criar.”

Cachoeira de 120 metros no Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros
Cachoeira de 120 metros no Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros

‘Deus chamou ele, fiquei só e terminei de cuidar dos filhos’
Casou-se aos 20 anos com um viúvo que já tinha seis filhos. Com ele teve outros seis. Maria ainda amamentava o mais novo quando o marido morreu após sofrer um derrame. “Não teve mais jeito, Deus chamou ele, fiquei só e terminei de cuidar dos filhos.”

Além do garimpo, ela também fazia pão para vender. A vida não era fácil. “Às 6h tinha que estar pronta para ir para o garimpo. Trabalhava até umas duas, três da tarde. Voltava para casa, lavava os minérios, ‘punhava’ para secar, e ia amassar o pão para poder assar e vender.”

E foi assim que criou os filhos. Diz que todo mundo hoje tem um “estudozinho.”

“Eu criei meus filhos na educação para nunca mexer em nada de ninguém. Porque eu hoje fico admirada que é uma ‘roubaiada’, uma coiseira. Eu fico assombrada quando chega esses tempo aqui com esse povo com essas roubação. Ave Maria, eu fico assombrada. Falo, ‘meu Deus, ainda bem que criei meus filho educado com todo mundo.”

A vida sem luz e sem energia
Contou que naquele tempo não tinha fogão de gás, não, era tudo a lenha. Nem energia elétrica, não, era tudo de lamparina. “Hoje está muito bom”, avaliou, referindo-se à transferência da economia da região para o turismo, com o surgimento das pousadas.

No passado, revelou que cansou de voltar do garimpo sem uma pedra na mão. “Às vezes tinha vez que não saía nada, mas eu nunca fiquei zangada.”

Em compensação, em algumas ocasiões tinha sorte. “Meu marido mesmo uma vez tirou uma pedra que era grandona. A gente olhava de cá e enxergava a pessoa de lá. Era lindinha, lindinha. Para vir de lá do garimpo para cá com ela foram seis homens que ‘trouxe’. Ele vendeu eu não lembro nem por quanto.”

‘Tudo é Deus’
E com uma história tão simples e humilde, que chega a emocionar, dona Maria deu uma resposta certeira sobre o sentido da vida. “Tudo é Deus. É Deus que planejou, preparou. A gente vive é por causa Dele, se não fosse Ele não tinha ninguém no mundo. É Ele que resolve tudo”.

E continuou. “É Ele que deixou tudo na vida. Foi Ele que plantou, que fabricou. Tudo quanto é coisa que tem no mundo foi Deus que deixou para os filhos Dele.”

Dona Maria disse que frequenta a pequena igreja da Vila de São Jorge, assiste todos as missas que passam na TV e ainda participa de eventos e festas religiosas na região. Graças a uma antena parabólica instalada hoje na frente de sua casa, assiste diariamente à transmissão das missas celebradas pelo Papa, no Vaticano.

“Todo dia eu assisto a missa do Papa lá de Roma. Agora mesmo terminou uma missa ‘agorinha’ e eu tava rezando o terço. Eu não perco nada, nada. Eu não gosto de novela, de filme, eu não gosto de nada. Agora reza pode ficar o dia e a noite que é comigo mesmo. Não perco uma missa. Adoro, gosto demais.”

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Um comentário

  1. […] Eu estava há cerca de uma semana na Chapada e tinha feito a amizade com um turista que tinha ido sozinho da Vila de São Jorge para o Vale da Lua – um lugar com pedras que lembram a paisagem lunar em meio a uma correnteza! Em tempo: a Vila de São Jorge é onde ficam pousadas e campings. Lá mora um senhorinha muito simpática que contou sobra a história do garimpo de cristal da região (leia aqui). […]

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