Ivan jamais namorou ou se casou, não teve filhos e nunca foi à escola; aos 64 anos, diz que ‘a vida sempre foi boa’

Seu Ivan disse que não tem nada na vida que poderia ter feito e não fez
Seu Ivan disse que não tem nada na vida que poderia ter feito e não fez

Ivan Antônio de Macedo, aos 64 anos, jamais namorou ou se casou, muito menos teve filhos. “Nunca encontrei uma que me quisesse, fui solteiro a vida toda.”

Também sequer conheceu o que é uma escola. “Não tive prazo de estudar, não deu.”

Mesmo assim, o aposentado não lamenta por nada em sua história. “A vida sempre foi boa. A gente sempre teve saúde. Algum dia que adoece um pouco, toma uns remédios…”

– Não tem algo que o senhor fala que poderia ter feito e não fez? – perguntei.

“Eu não falo isso, não!”

Trabalhou a vida toda no garimpo e na lavoura na região da Vila de São Jorge, na Chapada dos Veadeiros, em Goiás. Conversei com ele durante a viagem que fiz para lá em setembro.

Parado na frente de casa, Ivan contou nasceu e cresceu na Chapada. “Fui nascido aqui. Minha mãe e meu pai eram baianos. Com esse negócio de garimpo, meu pai disse que tava tando muito cristal, ai veio para cá”, explicou.

O pequeno Ivan tinha apenas 10 anos quando o pai morreu e começou a trabalhar “puxando a enxada” para ajudar a mãe a cuidar dos irmãos mais novos, ao todo, 9. “Nasci embaixo da sede do parque, onde está quase chegando o asfalto, ali para baixo. De lá ‘nós se mudemo’ para cá e estou aqui até hoje.”

Ele se referiu ao Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros, região repleta de lindas cachoeiras. Antigamente era lá que as famílias cavavam buracos em busca das pedras de cristal, mas a atividade foi proibida pelo governo.

“A vida nossa aqui sempre foi mexer com garimpo, agora mexo mais com lavoura, sabe? Eu trabalhei muito no garimpo, mas não dava sorte. A vida era sofrida, mas era uma vida boa.”

‘Caçador’

Disse que naquela época tinha liberdade para trabalhar com o que quisesse. Caçava animais para se alimentar. “Antigamente a gente vivia desses bichinhos. E tinha. Quanto mais matava, mais tinha. Hoje não mata mais e não se vê mais.” Afirmou que não era caçador, mas “de vez em quando acertava um tatuzinho e pegava.”

A mãe dele se foi há oito anos e desde então vive sozinho na casa que morava com ela. “Eu morava aqui mais minha mãe, mas ela morreu, eu fiquei só e tomei conta. Ela se chamava Marmaria, mas o apelido dela era Cota, morreu com 83 anos.”

Disse que passa o tempo visitando os irmãos, que vivem em outras cidades, e conhecendo o “Brasilzão” afora. “Já rodei pelo Brasil. Goiânia, Niquelândia. Agora pouco cheguei perto de Teresina. Saio por aí, passeando por essas beiras de rio tudo.”

Perguntei a Ivan sobre o sentido da vida: “Sentido da vida? Sentido? Sentido de agora pra frente é só esperar e se arrumar, pegou os 60 pra a frente é só caindo.”

Ao final da entrevista, eu já estava agradecendo pela conversa e me despedindo e seu Ivan me pergunta: e o marido, cadê? – é, vai ver não é bem só de “esperar e se arrumar” que Ivan vive, né?

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