‘O sentido da vida é realmente estar vivo’, diz fotógrafo que perdeu visão do olho após tiro de borracha da PM

'Meu sofrimento não foi só no dia 13, como não foi só em dois meses, ainda é ate hoje', diz Sérgio
‘Meu sofrimento não foi só no dia 13, como não foi só em dois meses, ainda é ate hoje’, diz Sérgio

“É uma história que não terminou lá em junho de 2013 e nunca vai terminar. Para mim vai ser eterna. Para muitas pessoas vai acabar. A PM vai passar impune, outros feridos provavelmente esquecerão, os não feridos também. Mas para mim vai ser eterno. Eu nunca vou esquecer. A dor física eu acredito que vai ainda ser superada, mas esquecer que eu perdi a visão por conta de uma violência gratuita de uma polícia reprimindo uma manifestação pacífica, isso vai ser inesquecível.”

A frase, do fotógrafo Sérgio Andrade da Silva, de 32 anos, reforça o impacto que um tiro de bala de borracha da Polícia Militar nos protestos de junho de 2013 causou em sua vida. O disparo atingiu o olho esquerdo dele enquanto trabalhava na cobertura da manifestação. A visão nunca mais voltou.

Fazia algum tempo que eu tinha procurado Sérgio para um depoimento sobre o sentido da vida, mas voltei a procurá-lo após vir à tona o caso do fotógrafo Alex Silveira. Ele também foi atingido no olho por bala de borracha da PM ao cobrir uma manifestação em 2000. Em setembro deste ano, foi divulgada a decisão do Tribunal de Justiça de São Paulo, de segunda instância, que o considerou culpado.

“É um absurdo, o cara toma um tiro no olho, perde a visão, e ainda é culpado por ser vítima? Está errado, está muito errado. Numa sociedade moderna em que vivemos, racional, não dá para tomar uma decisão irracional como essa”, afirmou Sérgio.

Sentido da vida

Eu tenho buscado entrevistar pessoas que passaram por grandes mudanças porque penso que essas situações as fazem pensar mais sobre a vida. E Sérgio concordou.  “Não tenha dúvidas que eu pensei muito sobre a vida, muito, até hoje ainda penso, muito.”

Afirmou que, de início, não aceitava o fato de não enxergar mais e que ainda passa por um processo de amadurecimento. “Quando eu passo a aceitar um pouco mais, que não enxergar com um olho também não é a pior situação de uma vida de um ser humano, eu penso que o sentido da vida é realmente estar vivo, sabe? É estar vivo, é você poder sentir, poder respirar, poder ouvir, poder enxergar, e não necessariamente todos esses sentidos ao mesmo tempo, mas se você tiver um deles a vida já faz sentido. Viva com aquilo que você tem, bom ou ruim, viva.”

Sérgio recordou que muitas vezes na nossa vida somos ensinados a “tirar pedras do caminho”, mas que às vezes a única alternativa é abraçar essa pedra e seguir em diante.

Para chegar a essa conclusão, contudo,  fotógrafo relata que não foi e não está sendo nada fácil encarar a nova realidade.  O processo desde que foi atingido, há mais de um ano, é  de muito sofrimento, dúvida se voltaria ou não a enxergar e indignação.

“O processo de tentativa de recuperação do olho e da visão foi muito longo, durou dois meses. O meu sofrimento não foi só no dia 13, como não foi só em dois meses, ainda é ate hoje. É um processo longo de recuperação psicológica”, disse. “Por três meses, o único pensamento que eu tinha era se voltaria a enxergar.”

Há ainda a adaptação prática de passar a enxergar com um olho só, tendo em vista que perdeu a profundidade da visão. Explica que aos poucos está se adaptando, mas às vezes sente dificuldades em medir a distância de objetos próximos ou na hora de descer uma escada, por exemplo.

Processo na Justiça

Obviamente, Sérgio entrou com um processo na Justiça pedindo indenização ao governo por dano físico e moral. “Essa é uma luta que eu digo que infelizmente é o que nos cabe, porque é a única maneira que nós temos que o estado se responsabilize pelo erro”, afirma.

“Para mim é infelizmente porque se nós vivêssemos em um país que o estado representasse os direitos dos civis, eles teriam voluntariamente assumido o erro e tomado cuidados comigo. Teriam me dado assistência física, psicológica, financeira. Porque me afetou também, e nunhuma dessas opções eles fizeram.”

O pedido foi encaminhado no ano passado e agora Sérgio aguarda o lento andamento do processo. “Essa é uma outra violência que a gente sofre, que é essa violência do poder judiciário, tem gente que gosta de falar que a Justiça é lenta, mas não falha. Para mim a Justiça é lenta, ponto, não tem complemento. E uma Justiça lenta ela prejudica quem quer que seja.”

O tiro

Na noite do dia 13 de junho de 2013 ele trabalhava, assim como inúmeros fotógrafos, fazendo a cobertura de um dos atos do Movimento Passe Livre (MPL) contra o aumento das tarifas do transporte público em São Paulo.

As manifestações, que dias depois tomariam conta de todo o país em grande escala, ainda estavam no início, disse Sérgio. Era na época em que os atos ainda eram noticiados pela imprensa como protestos violentos de um grupo de ativistas – e não uma causa de praticamente toda a sociedade, como se tornou posteriormente.

Justamente por conta disso, naquela noite a Polícia Militar de São Paulo foi às ruas também “em massa”, munida de bombas de efeito moral suficiente para conter os chamados “atos de vandalismo” por parte dos manifestantes, que pediam não só a redução pontual de R$ 0,20 na tarifa do metrô, mas sim uma revisão de longo prazo do sistema de cobrança do transporte público no estado e na cidade.

Sérgio recorda cada uma das cenas antecederam o tiro de borracha que atingiu o seu olho. “É uma noite que não dá para esquecer, eu não tenho como esquecer”.

Recordou que, naquela noite, a PM iniciou os primeiros disparos de bombas de gás lacrimogêneo e de efeito moral para tentar conter a manifestação dos ativistas. “Alguns ativistas revidaram com objetos que tinha na mão, porque é ação e reação”.

De acordo com ele, o gás começou a formar uma nuvem imensa e ele procurou se proteger. Chegou a se esconder atrás de uma banca de jornal e até tirou uma blusa que usava para colocar no rosto e se proteger do gás, devido a imensa dificuldade de respirar.

Quando as bombas param por alguns segundos, Sérgio revelou que saiu de trás da banca de jornal para voltar a trabalhar, e nesse instante é surpreendido pela retomada dos tiros. “Era muita bomba, eu nunca tinha visto um ato de repressão com a quantidade de bombas daquela forma e isso faz com que eu tire uma fotografia dessa tropa. Quando eu abaixo a câmera eu sinto o impacto no meu olho, um impacto vindo da direção dessa tropa da Policia Militar. Então a bala atinge meu olho e partir daí minha história muda totalmente.”

A dor que sentiu assim que foi ferido é indescritível, revelou. “Olha, não é dor aquilo. É algo que está além da dor. Dor eu já senti. Eu não consigo definir o que eu senti naquela noite porque é tão intenso, parece que seu rosto vai explodir, que a cabeça vai explodir, parece que você vai chegar à morte. Se um cisco no olho já dói, imagina uma pancada de uma bala disparada de uma arma calibre 12?”

Ao todo, passou por três cirurgias no olho. A última delas foi estética. “Porque a alternativa era ou permanecer com esse globo ocular que não funcionava mais, ou extraí-lo e fazer uma cirurgia estética (…). Precisei colocar uma prótese interna e outra externa, que é uma lente”, explicou.

Mudança na forma de encarar a vida

E todo o processo que passou, segundo Sérgio, mudou a forma como encara a vida em sim. “Se você perguntar para mim o que mudou na minha vida, é isso. Mudou 100% a minha vida. Eu digo a minha vida interior. Não é o ciclo de amizades, um novo emprego, a nova fotografia. Não é porque apareço mais na mídia do que antes. Isso são coisas banais que vão passar. O que mudou realmente de fato é quem eu sou e o que eu serei daqui para a frente, essa é a grande mudança.”

A experiência o fez perceber que pode ser uma pessoa melhor. Diz, por exemplo, que se há algum lado bom dessa tragédia é que se aproximou de muitas pessoas, da família, e que acabou conhecendo muitas pessoas que estão se tornando  incríveis.

“Acho que é uma história do ser humano. A gente vai aprendendo a lidar, a absorver as coisas boas, e isso é bom. Quando você encontra pessoas que mesmo em situações que são ruins, traumáticas, de dor, que conseguem absorver coisas legais, isso enriquece o lado humano das pessoas e naturalmente isso vem acontecendo no meu ciclo de amizades e isso é legal pra caramba.”

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