O sentido da vida no asilo: ‘da vida não tenho nada, mas também não levo nada. Graças a Deus, nunca me faltou nada’, diz senhora de 94 anos

'Vai pela sombra! Que o sol está quente!', brincou Dona Rosa quando eu fui embora
‘Vai pela sombra! Que o sol está quente!’, brincou Dona Rosa quando eu fui embora

Há um ano, em outubro de 2013, eu fui a um asilo com minha avó visitar uma amiga dela. Eu pedi para ir junto justamente porque queria conversar sobre o sentido da vida com uma idosa que vivesse num asilo.

Naquele dia, eu fiquei tão abalada com a visita que não consegui escrever o texto com o único depoimento que colhi. Saí de lá meio “chororô”, desanimada em ver tão de perto todas as dificuldades que podemos ter na velhice, como ficar doente, perder a memória ou não ter com quem morar.

Não que aquelas vovós estivessem mal amparadas. Pelo contrário. O asilo era organizado, limpinho e com funcionárias atenciosas. Mas fiquei com o coração apertado de ver a cena delas ali, já velhinhas, sem poder mais controlar a própria vida – o que, no fundo, deve acontecer com a maioria de nós.

Recentemente, eu estava organizando os arquivos com os depoimentos que colhi até agora para o blog e achei o de Rosa Gonzales, com quem conversei aquele dia.

Hoje, um ano depois, repensei e concluí que devo, sim, publicá-lo. Afinal de contas, o projeto é sobre o sentido da vida e não faz o menor sentido eu deixar de escrever só porque a cena que vivenciei era triste.

Entre todas as vovós que estavam no asilo naquela ensolarada tarde de sábado, Dona Rosa era uma das mais velhas, com 94 anos. Ao mesmo tempo, a que tinha a melhor memória para conversar, orientou-me uma das enfermeiras do asilo.

Bem devagarzinho e deitada na cama, Rosa conversou comigo por quase 20 minutos – no final, disse que estava cansada e a deixei quieta para voltar a ler a revista que lia antes de eu chegar.

A história de Dona Rosa

Nascida em Jaú, no interior de São Paulo, Dona Rosa repetiu três vezes que veio ao mundo no dia 20 de fevereiro de 1919. “Nasci em Jaú, no dia 20 de fevereiro de 1919. Tem Campinas, Rio Claro, Dois Córregos e Jaú”, afirmou, creio eu que tentando exemplificar cidades que existem antes de Jaú vindo de São Paulo.

Não sabia exatamente há quanto tempo vivia no asilo, mas estava certa que ainda não tinha completado um ano.

Contou como foi parar lá: “é uma longa história. Uma história triste, de um fracasso. Eu morava num sobrado com a minha irmã. Mas a casa não era minha, era da minha irmã. Ela morreu e não era justo eu ficar na casa sozinha, sem pagar o aluguel nem nada, né?” Disse que seus sobrinhos, filhos da irmã, venderam o imóvel, que fica na região do Ipiranga, na capital paulista.

Dona Rosa pagava a mensalidade do asilo como o dinheiro da aposentadoria. De vez em quando, os sobrinhos a visitavam, revelou, já que nunca se casou e nem teve filhos. “Sou solteirinha, solteirinha da Silva. Sou solteira, nunca casei. É novidade?”, perguntou – aí eu respondi: “não é, não, Dona Rosa, hoje em dia é muito comum!”

Disse ser a mais nova de sete irmãos (o primeiro homem e as outras seis mulheres) e que, com a morte da irmã com quem vivia antes de ir para o asilo, só sobrou ela.

Cresceu em Jaú. Quando criança, ajudava o pai na venda. “Eu cuidava das cadernetas, sabe o que é caderneta? Para marcar os fiados?”

– E depois, Dona Rosa, o que a senhora fez?, perguntei

“Depois? Vida boa!”, respondeu.

Contou que estudou contabilidade, profissão que exerceu por 35 anos e a fez mudar para a capital. “Eu adorava contabilidade”.

Perguntei a ela se já tinha viajado para fora do Brasil. “Fui em algum lugar, fui na Argentina, Uruguai, esses lugares que os brasileiros vão.”

Como Dona Rosa falava bem pausadamente e pedia para eu repetir cada questão, logo se cansou e não pude estender a conversa. Antes de terminar a entrevista, claro que eu fiz uma última pergunta. Repeti umas três vezes até ela entender que eu perguntava “qual era o sentido da vida”:

Eu da vida não tenho nada, mas também não levo nada. Graças a Deus nunca me faltou nada”, afirmou.

Aí eu perguntei de novo: a senhora acha que a gente está aqui na vida por algum motivo, o que a senhora pensa?

“O que eu penso? Eu tô aguardando a morte, porque todo mundo aguarda.”

Aí, já com a cabeça um pouquinho cansada, ela voltou a falar que trabalhou a vida toda com contabilidade e que gostava muito do que fazia.

– Então tá Dona Rosa, obrigada pela entrevista, viu?

“E você vai pela sombra! Que o sol está quente!”, sugeriu.

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