Para enfermeira que cuida de idosos em casa, sentido da vida é ‘ter sensibilidade de olhar ao próximo’

'Não adianta você entrar no padrão de qualidade do humano porque você vai sempre errar', diz Keila
‘Não adianta você entrar no padrão de qualidade do humano porque você vai sempre errar’, diz Keila

A enfermeira Keila Santos, de 34 anos, estava sentada em um banco do lado de fora da Biblioteca Mário de Andrade, no Centro de São Paulo, quando a delicada flor rosa que ela tinha presa no cabelo me chamou a atenção.

Ela estava lendo um livro, mas eu aproveitei um momento em que se distraiu da leitura para interrompê-la e conhecer um pouco de sua história – quem seria a moça por trás daquele singelo penteado?

Foi quando eu soube que Keila é enfermeira domiciliar e cuida de idosos há seis anos. Apaixonada pelo que faz, disse que gosta e se identifica com a saúde do mais velhinhos e tenta levar um diferencial para a vida deles.

“Eu acho que a vida deles vai perdendo o sentido em questão de família, a família vai abandonando. Eles sentem falta de pessoas de astral bom, de conversa, de carinho. Eu tento proporcionar isso, não só nos cuidados de enfermagem, mas com o psicológico deles, com uma boa conversa, um carinho, o que falta para a vida deles.”

Keila explicou que atualmente cuida de uma senhora de 89 anos no período noturno. A jornada começa às 19h e vai até as 7h do outro dia. Também cuida de outra idosa aos finais de semana, em jornada de 48 horas. “Não é cansativo chegar à noite, eu faço o que eu gosto e encaro com tranquilidade.”

Ela me contou que já trabalhou como técnica de radiografia em hospital, mas resolveu estudar enfermagem após começar a cuidar de uma idosa que a ajudou e incentivou até no pagamento dos estudos. A senhora, contudo, morreu pouco após completar 88 anos. “É uma pessoa muito importante na mina vida. É uma pessoa inesquecível. Cuidei dela por quatro anos. Ela me dava o meu salário e uma ajuda de custo para pagar a faculdade.”

Sentido da vida

Para a enfermeira, o contato próximo com a morte e com idosos a fez enxergar a vida de uma forma diferente. Para ela, o sentido da existência é buscar ser uma boa pessoa.

“Para mim, o sentido da vida é tentar ser o melhor ser humano possível. Ter sensibilidade de olhar ao próximo como a si mesmo, sem fazer distinção de pessoas. Olhar o ser humano como um todo, independente de estar sujo ou limpo, se é branco ou preto.”

Na opinião de Keila é importante olhar para as pessoas com simplicidade e amor. “Tentar fazer algo, mesmo que não seja financeiramente, mas em pensamento, transmitir coisas boas. Tentar olhar a pessoa e falar, ‘poxa, ela poderia estar melhor’. Sempre sorrir, dar um sorriso, um bom dia, ser a pessoa mais leve possível ao meu próximo” – o curioso é que eu justamente tinha ido falar com Keila porque senti algo calmo quando a vi sentada na frente da biblioteca, quieta, lendo um livro.

Preconceito

Ela me disse que chegou a esse ponto de vista sobre a vida por ter sido criada numa família evangélica muito rígida. Disse também que sofria algum preconceito das pessoas por ser diferente, usar apenas saia e ser mais reservada.

“As pessoas se incomodam com seu silêncio. Tem o preconceito também por não estar no padrão de beleza das pessoas. Isso gera preconceito e hoje eu sou livre e não preciso vestir uma roupa bonita para agradar ninguém. Eu me visto para mim. Eu mesma me elogio, não espero nada de ninguém (…). Não adianta você entrar no padrão de qualidade do humano porque você vai sempre errar. Para ele, você nunca estará no padrão de excelência. Vai sempre estar errada em algum aspecto.”

Por esse motivo, disse que busca trabalhar seu próprio “eu”:

“Se olhar para o seu ‘eu’ você não erra. Você erra e aprende ao mesmo tempo. É ter humildade, que é fundamental para vida do humano. Reparar o erro. Saber que estou errada então eu vou consertar.”

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