Jornalista que deu a volta ao mundo pedindo carona diz que a vida é ‘uma viagem com data para acabar’, onde ‘tentamos aprender e ajudar os outros a aprender’

"Todas as experiências me ensinaram e sou grata a cada uma delas", diz Kívia.
“Todas as experiências me ensinaram e sou grata a cada uma delas”, diz Kívia

Aos 26 anos, a jornalista mineira Kívia Mendonça Costa, hoje com 28, resolveu deixar o emprego que tinha em um banco em São Paulo, pegar suas economias e transformar seu sonho em realidade: dar a volta ao mundo.

A partida foi em maio de 2013. Em 13 meses, ela visitou 38 países, na maioria das vezes de carona. Disse que reservou o equivalente a R$ 1,5 mil por mês para gastar durante a jornada. “Eu tinha como meta gastar 20 dólares por dia. Às vezes gastava mais, às vezes menos, mas ficava nessa média. Isso não inclui passagens aéreas, seguro de saúde e reserva para emergências”, contou.

Eu conheci a história dela por meio de uma reportagem que uma amiga minha fez sobre a viagem de Kívia para o G1 (leia aqui). Como é começo de ano, quando costumamos repensar a vida que levamos, eu imaginei que a experiência de Kívia poderia servir como inspiração para muitos de nós. Então a procurei e ela topou dar uma entrevista para o Vidaria.

Enviei as perguntas um pouco antes do Natal, quando Kívia estava na Grécia passando um tempo com o namorado grego que conheceu durante sua volta ao mundo – a jornada terminou em junho de 2014, mas ela voltou a viajar por aí e disse que, ao todo, já conhece aproximadamente 60 países.

Perguntei à viajante se foi difícil se desprender da vida e rotina que levava antes da viagem. Pela sua resposta, percebi que nem um pouco. “Sou uma pessoa desprendida, não rolou nenhum drama de partida. Também não tinha muito o que deixar para trás. Não tinha carro, apê, móveis… Nem colchão!”

Ela comentou que as pessoas gostam de usar o termo “largar tudo”, mas que, para ela, não foi isso: “Foi uma continuação de quem sou, uma aprendiz. A volta ao mundo sempre foi um sonho e, no fim das contas, virou realidade.”

E para o começo deste ano, depois de conhecer tantos países mundo afora, a jornalista afirma que pretende viajar de carona pelo Nordeste do Brasil, em busca de histórias.

Kivia Face 3
‘Volta ao mundo foi uma continuação de quem sou: uma aprendiz’

Aos que quiserem acompanhar sua saga, Kívia divide as experiências que vive no blog Kiviagem (leia aqui) – até o nome dela termina onde começa a viagem. “Pretendo dar contornos mais antropológicos do que turísticos ao projeto. É o que pretendo fazer nesta próxima etapa do Kiviagem”, afirmou.

A jornalista reforça bastante que não viaja apenas pelo turismo. É por isso que gosta de pegar caronas, conhecer outras realidades e conversar com diferentes pessoas.

Revelou que não tem medo de pegar carona com desconhecidos. “Eu sempre peguei carona, desde criança, com a minha mãe. Também já tinha pegado várias caronas na Europa (morei um ano na Alemanha e três meses na Itália), então não teve muita novidade, a parte as particularidades culturais de cada lugar. Gosto de pegar carona para ouvir histórias, interagir com os locais.”

Tudo em uma sacola de supermercado

Sobre a volta ao mundo, Kívia, aliás, sequer fez as malas. Ela saiu daqui com poucas coisas dentro de uma sacola de supermercado e durante a viagem foi comprando o que precisava.

Ela contou que, quando saiu, tinha uma lista de países que queria visitar e data para voltar, mas não sabia o que fazer em cada lugar, nem qual cidade visitar.

No Kiviagem há uma longa lista com os países que conheceu e textos que fez sobre os destinos em todos os continentes. Há desde destinos da  América do sul, como Argentina, Equador e Chile, a lugares mais exóticos, como Albânia, Camboja, Honduras, Laos e Índia. Até para a Palestina ela foi.

Perrengues

É claro que Kívia passou por alguns contratempos durante a viagem, afinal, faz parte, né? Entre eles estão ser roubada, ficar doente, dores na coluna e até uma cirurgia de última hora (por suspeita de apendicite, que não se confirmou). Contudo, afirma que encarou todos os “perrengues” como aprendizado.

“Hoje, quando olho para o mapa que percorri, não penso no que gostei ou no que não gostei. Todas as experiências me ensinaram e sou grata a cada uma delas.”

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‘Você tem que ser você, oras. E talvez esteja em uma rotina massacrante, porque não se conhece ou não se assume.’

Sentido da vida

E na sua resposta sobre o sentido da vida, Kívia deixou bem claro que realmente viajar é o que mais importa para ela: “A vida é uma viagem com data para acabar”, afirmou. “Um estágio, em que tentamos aprender e ajudar os outros a aprender. Muito mais do que isso, não dá tempo de fazer.”

Ao final das respostas, a jornalista mandou um texto inspirador de seu blog sobre as pessoas que a procuram pedindo dicas para viajar (leia aqui). Disse que não tem como fazer uma lista com “cinco coisas que você tem que ser para viajar”. E afirma: “Você tem que ser você, oras. E talvez esteja em uma rotina massacrante, porque não se conhece ou não se assume.”

Com relação à questão financeira, ela afirma que hoje em dia presta alguns serviços como freelancer na área de tradução e jornalismo. “Ganho pouco, mas depois que percebi que quando você está em movimento precisa de muito pouco para viver, não esquento muito a cabeça com dinheiro. Também, as pessoas estão mais dispostas a ajudar do que a gente imagina e eu sou expert em controle de gastos”.

Hoje, o que tira seu sono não é como ganhar dinheiro para pagar as contas, que são mínimas, afirmou, “mas como fazer alguma coisa para distribuir melhor toda essa renda que há no Brasil e no mundo, de modo que ninguém precise se comportar como um escravo só para sobreviver.”

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