‘A gente está cada vez mais conectado, mas com o coração cada dia mais vazio’, diz analista de redes sociais na Campus Party

Felipe e Marcel acamparam na Capus Party 2015: 'Estamos mais sozinhos do que nunca', diz Marcel Bely (dir.) sobre relações humanas virtuais
Felipe e Marcel acamparam na Capus Party 2015: ‘Estamos mais sozinhos do que nunca’, diz Marcel Bely (dir.) sobre relações humanas virtuais

“Parece que a gente está cada dia mais conectado, mas com o coração cada dia mais vazio, mais frio. Porque as relações hoje se dão muito mais no âmbito virtual do que no real, e a gente está perdendo a capacidade de se relacionar no mundo real”. A opinião é do analista de redes sociais Marcel Bely, de 26 anos, um dos participantes da Campus Party 2015, evento de tecnologia que aconteceu de 3 a 8 de fevereiro em São Paulo. Ele falou a frase ao avaliar o impacto da tecnologia nas nossas vidas nos dias de hoje.

Eu fui até a Campus Party para conversar com participantes do evento sobre o sentido da vida. Como o evento reúne pessoas que gostam muito de tecnologia e muitas delas trabalham com isso ou passam horas na frente do computador, pensei que poderia colher relatos interessantes – afinal, o avanço tecnológico tem influenciado cada vez mais a forma como vivemos e nos relacionamos com as pessoas.

Na manhã de sexta-feira (6), Marcel estava do lado de fora do galpão do evento, tomando um ar com o amigo Felipe Castro, que também tem 26 anos e também é analista de redes sociais. Os dois eram “campuseiros” (participantes que acampam durante o evento) e aproveitei que tinham saído do galpão para “ver a luz do dia”, em suas próprias palavras, para conversar com eles.

“Como a gente está habituado a mandar uma mensagem, um Whatsapp, mandar qualquer tipo de conexão online, parece que a gente está rodeado sempre de amigos, que a gente nunca está sozinho. A gente está no nosso quarto e está sempre conversando no Whatsapp, mas depois de um tempo a gente sente que está sozinho, sim”, avalou Marcel. Para ele, esse habito acaba por gerar ansiedade, transtornos psicológicos e até depressão nas pessoas. “Só que a gente não consegue enxergar isso quando a gente está dentro dessa bolha virtual, quando a gente acha que conversa com todos ao mesmo tempo, que está cercado por todo mundo, mas na verdade a gente está mais sozinho do que nunca.”

Sentido da vida

Quando perguntei a eles o sentido da vida, Felipe comentou que, apesar de todo o avanço da tecnologia, ele acreditava que o sentido da vida era o esforço humano por trás das ferramentas tecnológicas. “A tecnologia ajuda, mas sempre vai ter um humano por trás da tecnologia. Você pode fazer robô, drone não tripulado, mas sempre vai ter alguém controlando um drone, sempre vai ter alguém programando o robô, sempre vai ter alguém atrás do Facebook, do Twitter. Se eu for resumir, para mim o sentido da vida é a humanidade.”

Marcel, por sua vez, afirmou acreditar que a vida tem sim um sentido, mas ele ainda não tinha conseguido descobrir qual era. “Não consegui significar a minha ainda, eu tenho muito claro que toda vida tem um sentido, mas qual é o significado da minha existência aqui eu ainda não consegui descobrir. Engraçado é que a vida sempre esteve aqui e ela vai continuar aqui, o que a gente faz com ela é o que vai fazer valer a pena ou não, então eu ainda estou tentando descobrir se o que faço com minha vida hoje é algo que vá me orgulhar na frente ou não.”

Ele disse, ainda, que o tema era interessante, porque nunca paramos para pensar no sentido da vida. “Quando paramos para pensar, não encontramos a resposta.”

Próximos dos distantes e distantes dos próximos

Professor Carlos foi à Campus Party com alunos
Professor Carlos (esq.), na Campus Party com alunos Gustavo e Ramilton: ‘Está na sua mão se livrar disso’, diz, sobre excesso de uso de tecnologias

Eu também conversei com Carlos Eduardo de Souza Leopoldo e Silva, de 33 anos, que é professor de cursos técnicos de informática e tinha ido à Campus Party com alunos.

Carlos comentou que reflete bastante sobre a questão da influência do avanço tecnológico nas nossas vidas. “Nunca estivemos tão próximos dos distantes e tão distantes dos mais próximos. As pessoas deixam de falar com quem está próximo para ficar no celular e falando com aquele que não está tão próximo, perdem essa relação humana, essa interação humana.”

O professor, contudo, disse acreditar que estamos passando por uma fase de mudança cultural e espera que, aos poucos, aprenderemos a conviver com a tecnologia e usar as ferramentas sem interferir nas relações presenciais.

“O que eu falo muito é que a tecnologia não é a finalidade, é o meio para facilitar as relações humanas. O humano está lá, ele criou, manipula e controla isso. Se a gente quiser a gente pode desligar, você pode pegar seu celular e colocar ele em cima da mesa, no seu bolso, desligar o computador e olhar para a pessoa que está do seu lado, você pode fazer isso, não está amarrado, com corrente, preso à tela, só se você quiser. Está na sua mão se livrar disso.”

Quando perguntei a Carlos qual é o sentido da vida, ele comentou sobre a sensação que a tecnologia nos dá de perder o “sentido do tempo”. “As pessoas falam que o tempo está passando mais rápido, mas será que está passando mais rápido mesmo ou é a gente que não está percebendo passar ao tempo?”

De acordo com ele, essa sensação nos faz refletir sobre a forma que usamos o nosso tempo e sua relação com o sentido da vida. “Por que estamos aqui? Para sermos felizes? Seria uma busca ideal para nós. Muita gente falaria que o sentido da vida é sobreviver. Mas acho que estamos aqui para fazer alguma diferença. (…) Todo mundo só pensa em si próprio e esquece que um influencia a vida do outro.”

‘Desapego da realidade’

Felipe e Marcel também avaliaram sobre a importância de se pensar na “coletividade” e avaliaram que eventos como a Campus Party provocam uma reflexão entre os participantes sobre o tema.

“A gente vive numa explosão de tecnologias, de gadgets, coisas portáteis, celulares e acessórios que conversam com a gente. Mas o mundo tem outras coisas que a gente tem que se preocupar, como por exemplo a água. Olha só, falta água hoje em São Paulo e aqui a gente não está preocupado com isso, a gente está preocupado com a velocidade da internet”, disse Marcel.

Citaram que dentro da Campus Party os participantes vivenciam “um mundo à parte”, onde se discute e vive tecnologia 24 horas, e que essa vivência impacta na “vida real” após o evento. “Esse ecossistema [durante o evento] tem um tempo de vida curtíssimo. Aí você volta para o mundo real, e como você vai atuar dentro desse mundo real de novo? Isso pode ser um choque de realidade.” De acordo com eles, durante o evento muitos dos participantes sequer saem do galpão para ver a luz do dia. Acampados, ficam conectados em seus computadores e assistindo a palestras e perdem a noção do dia lá fora.

Para Felipe, o evento é como se fosse um “desapego da realidade”, porque os “campuseiros” passam uma semana acampando em barracas, com conforto zero, mas conectados com internet de altíssima velocidade e participando de discussões sobre tecnologia o tempo todo. “São 8 mil pessoas pensando 100% na coletividade, em trocar ideias, produzir conteúdo junto, em várias áreas, seja robótica, programação, games, daqui sai muita parceria, sai muito negócio, sai muito insight”, avaliou.

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