Tia Dag, criadora da Casa do Zezinho, diz que sentido da vida é ‘dar continuidade ao que você tem’

"Meu ego é grande, quem ensina são os 'Zezinho's, a ponta do arco-íris não tem'
“Meu ego é grande, quem ensina são os ‘Zezinhos’.”

Faz um tempo, uma amiga me contou da história de Dagmar Rivieri Garroux, a Tia Dag, criadora da Casa do Zezinho, uma entidade na periferia de São Paulo que oferece atividades educativas a crianças e jovens de baixa renda.

Guardei a indicação da minha amiga e recentemente resolvi procurar Tia Dag para conversar sobre o sentido da vida. A conversa foi rápida, por telefone, mas durou o suficiente para eu conhecer uma Tia Dag curta e grossa, determinada e prática. Alguém que ao mesmo tempo assume “ter um ego enorme”, mas diz que não escolheu nada na vida e só dá continuidade ao que aprendeu: “nada é nosso.”

Acredito que o momento é oportuno para publicar o depoimento dela, tendo em vista os recentes protestos de professores de escolas públicas pelo país, o que nos chama a atenção para a importância e urgência de investimentos na educação pública.

Os zezinhos

A Casa do Zezinho atende 1,2 mil crianças e jovens (os ‘zezinhos’) que frequentam escolas públicas da região de Campo Limpo, na Zona Sul de São Paulo, onde fica a entidade.

A casa, na verdade, era de Dagmar – aliás, de Tia Dag, como ela pede para ser chamada: “Dagmar era como minha mãe me chamava para dar bronca”, adverte.

O imóvel foi comprado por ela e pelo então marido na década de 1990, mas acabou se transformando em espaço de acolhimento para crianças da região.

É que Dagmar não conseguia ver as crianças sem amparo e as levava para casa para ajudar, dando comida e acolhimento. Explicou que não conhece outro jeito de viver que não seja compartilhando e dividindo o que tem. Afirma que foi criada assim e não consegue entender como é ser de outra forma. Formada em pedagogia, faz questão e ressaltar “que não é pedagoga, mas um ser humano”.

'Nunca a gente morou só nós. Em casa nunca teve esse conceito. Nada é nosso.'
‘Nunca a gente morou só nós. Em casa nunca teve esse conceito. Nada é nosso.’

‘Nada é nosso’

Explica que desde criança nunca morou só com a família. “Vou dizer uma coisa para você, para mim é tudo tão natural. Na minha casa era assim, com meus pais era assim. Nunca a gente morou só nós. Em casa nunca teve esse conceito. Nada é nosso.”

Filha de um engenheiro com uma empresária, explicou que seus pais sempre ajudavam as pessoas e os funcionários de casa – alfabetizando e investindo no ensino das empregadas, que se qualificavam e saíam para trabalhar em outra profissão.

Aos 13, 14 anos, Tia Dag visitou uma favela pela primeira vez. Sempre buscou trabalhos voluntários. Fez magistério e se especializou em excepcionais. Ele teve uma filha excepcional e a perdeu.

Hoje, disse que 97% dos funcionários da Casa do Zezinho são ex-zezinhos. O nome, aliás, vem da expressão “Zé ninguém”, tendo em vista a quantidade de “Josés” que existem por aí.

Na Casa há espaços de aprendizagem, laboratórios de informática, estúdios de som e de vídeo, oficinas e ateliês de arte, quadras poliesportivas, piscina, refeitório, auditórios, ambulatórios, escritórios, espaços comuns e espaços de integração ambiental. “É um lugar onde os Zezinhos recebem atenção, carinho, alimentação, material escolar e orientação para o desenvolvimento de sua identidade, criatividade e capacidade produtiva”, diz o site da entidade.

Sentido da vida

Tia Dag afirmou que aprendeu muito com a vida. Que sempre acreditou saber de tudo, mas foi aprendendo levando “porrada”. “Eu só aprendo na porrada.” Ressaltou que cresceu muito com fatos como a morte da primeira filha ou a perda dos pais.

Afirmou categoricamente que não pensa no sentido da vida, que para ela isso não vale a pena. Diante da minha pergunta, contudo, ensaiou uma resposta. “É dar continuidade ao que você tem. Se seus pais foram as suas árvores… Deu um fruto? Então planta mais!”

Revela que seu “ego é grande” e que aprende muito com os “zezinhos”. “Quem ensina são os zezinhos. A ponta do arco-íris não tem”, sugeriu.

Acredita que não escolheu nada na vida, que sim foi escolhida para fazer o que faz. “Quem escolhe? A gente é que é escolhida. Alguém me deu uma chance. Alguém e eu tenho que obedecer.”

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