O homem que segurou minha bicicleta

Uma crônica sobre receber o que pedimos de onde menos esperamos

Eu estava naturalmente atrasada e angustiada tendo que decidir às pressas entre ir ou não a um show de bicicleta. 

Tomar essa decisão é um dilema frequente no meu dia a dia. Sempre deixo pra resolver se vou de bike aos lugares de última hora, enquanto escovo os dentes ou me troco, lamentando já estar atrasada e calculando o tempo que levarei pra chegar com ela — fator às vezes decisivo para a escolha do metrô ou Uber.

Se dependesse apenas do quanto gosto de pedalar, jamais ficaria indecisa. Além disso, é de graça, não polui e ainda me exercito. Mesmo assim, há outros fatores a serem considerados antes de usá-la, como o clima lá fora, o horário (muito tarde é perigoso), minha roupa, coisas a carregar e, o mais importante: se haverá onde guardá-la no local. 

Já tive a terrível experiência de ser furtada ao prendê-la na rua e só vou de bike quando sei que terei onde deixá-la com segurança.

Naquela noite, porém, eu não tinha feito a pesquisa e já estava atrasada demais pra isso. Eram 18h25 e o show começaria às 19h, no centro. Por ser horário de pico, pagar um Uber não era garantia de chegar na hora, então, descartei.

O trajeto tanto de bicicleta como de metrô levava 45 minutos — ou seja, já chegaria tarde de qualquer jeito. O clima estava agradável e a bike seria a escolha perfeita não fosse a preocupação de onde guardá-la.

Angustiada e vendo o relógio dar quase 18h30, segui meu coração e resolvi ir pedalando: há de ter um bicicletário lá, pensei.

O percurso foi muito agradável, como o previsto. Assim que cheguei, às 18h12, tive sentimentos antagônicos ao ver que, sim, havia um bicicletário logo na entrada, mas virado pra calçada! Como assim eles fazem isso no centro da cidade, é muito inseguro!, xinguei. Dei uma segunda bufada ao constatar que o suporte era daqueles de pendurar, onde a bicicleta é amarrada apenas pela roda. 

Indignada, reclamei com o segurança: “moço, esse bicicletário é perigoso. Não posso deixá-la aí dentro?”. Respondeu negativamente, mas me tranquilizou afirmando que a olharia enquanto eu estivesse no show. “Pode entrar tranquila, daqui eu não saio!”, garantiu. Já eram 18h15, eu estava mega atrasada, e resolvi confiar nele. 

Surgiu, então, um terceiro incômodo: havia apenas um gancho disponível bem no meio de dois outros dois já ocupados. Só quem já tentou levantar a bicicleta e encaixar a roda nesse acessório entre duas outras sabe o sufoco que é. O que dirá fazer isso às pressas.

Resmunguei internamente, xingando o segurança que não me auxiliava; o local por fazer um bicicletário tão ineficiente; a cidade, por ser tão insegura; a mim, sempre atrasada; as pessoas nas ruas, indiferentes. 

Tentei encaixar a bicicleta no gancho umas duas vezes, segurando uma das bikes com a mão direita, a minha com a mão esquerda, apoiando o banco no meu joelho e tentando afastar a terceira bicicleta com a roda. “As pessoas não se preocupam com as outras nesta cidade! Todos são alheios! Não é possível que ninguém esteja percebendo o apuro que estou passando”, queixava-me. 

Já eram 18h20 e eu lá fora, toda atrapalhada, terrivelmente arrependida por ter escolhido ir de bicicleta. “Tá vendo, Gabriela, se tivesse vindo de metrô, já estava lá dentro, curtindo o show”, chicoteei-me em pensamentos. 

Eis que, subitamente, como um milagre, uma mão surge diante de mim e afasta uma das bicicletas pendurada, abrindo espaço para eu encaixar a minha. Olho pro lado, era um morador de rua, cobertorzinho na mão, sorriso no rosto. “Nossa, muito obrigada, moço!”, falei, completamente surpresa. Mesmo assim eu me desequilibrei e ele ainda me ajudou a levantar a bike. 

Imensamente agradecida e sem saber se isso era o correto, dei-lhe uns trocados. “Obrigado, uma mão lava a outra, né, moça!?”, disse-me, ainda sorridente. “Com certeza, moço!”

Entrei correndo pro show — que era da minha professora de flauta e foi incrível. Na saída, restava apenas a minha bicicleta, solitária, no gancho. “Não disse que ela estaria aí?”, dirigiu-me o segurança. “É, você disse, muito obrigada por ter olhado, viu?!”.

Voltei pra casa pedalando, sem pressa, e curtindo a brisa amena daquela noite de outono. Não é que a movimentada São Paulo é linda vista da ciclovia?, pensei, e concluí: sem dúvida, ir de bicicleta havia sido a melhor escolha!

Gostou dessa crônica?

Siga minha página no Instagram e no YouTube para conhecer mais dos meus textos!

Ajuda para escrever

Sonha em escrever um livro e não sabe por onde começar? Fale com a Vidaria Livros e escreva um livro sobre a sua vida. Entre em contato pelo nosso site www.vidarialivros.com.br.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s