Por que agora eu digo “Graças a Deus”

Uma crônica sobre agradecer à vida pelas sortes que batem à nossa porta

Esses dias, uma amiga das antigas reparou que incluí no meu vocabulário uma expressão que lhe causou certa estranheza: a popular “Graças a Deus”. Fazia um tempo que não nos víamos e chamou sua atenção o fato de eu, que fui declaradamente ateia por muitos anos, agora sair por aí demonstrando meu agradecimento a um criador divino pelas boas sortes que porventura batem à nossa porta. 

Provavelmente utilizei do recurso linguístico em meio aos usuais diálogos nesses reencontros, quando cada um faz breve atualização de como vai a vida. “Graças a Deus, estou bem de saúde”; “como a sua filha está linda, graças a Deus!”; “finalmente pudemos nos reunir novamente e sem máscara, graças a Deus”, e assim por diante.

Conversa vai, conversa vem, em determinado momento — e provavelmente bastante intrigada — , minha amiga comentou algo como: “notei que a Gabi agora tem falado bastante ‘graças a Deus’”. 

Emendamos um papo sobre as crenças de cada um, mas logo em seguida mudamos de assunto. Acabou que não deu tempo de eu explicar que a inclusão do “graças a Deus” no meu vocabulário aconteceu “de caso pensado” — pra lançar mão de outra expressão popular.  

Cresci numa família de religiosos fervorosos. Minha avó materna era protestante e lia trechos bíblicos em todos os almoços familiares. Antes da refeição, nós nos reuníamos de mãos dadas ao redor da mesa e só podíamos atacar os suculentos pratos trazidos por cada tia após a leitura, seguida da oração do “Pai Nosso”. O “amém” coletivo anunciava a permissão para iniciar a comilança.

Já meus pais sempre foram os ditos “católicos praticantes” — mais um dizer do povo brasileiro que, aliás, revela a ambiguidade da fé de nossos seguidores do catolicismo, entre os quais o mais comum é ser católico sem praticar. Não é o caso dos meus pais, que desde pequena me obrigavam a ir à missa todos os domingos, religiosamente — no sentido literal para eles, mas no metafórico para mim. 

Aos 15 anos, declarei minha alforria, anunciei meu ateísmo e, graças a Deus, nunca mais assisti a uma missa sequer por obrigação, fazendo isso apenas em cerimônias de casamento ou missas de sétimo dia de entes queridos. 

Junto com minha emancipação religiosa, as expressões que cresci ouvindo dos meus familiares também caíram em desuso no meu vocabulário. Por mais de uma década, simplesmente me recusei a dizer o esperado “amém” depois do “Deus te abençoe” ou “fica com Deus” dito pelas minhas avós e pais após cada despedida. Aquilo me parecia uma obrigação e os respondia com engasgados “tá bom” ou “obrigada”.

Há alguns anos, porém, como não é raro de acontecer, passei a procurar alguma forma de praticar a espiritualidade. Não me tornei cristã, mas passei a frequentar encontros de filosofias orientais como ioga, meditação e cerimônias budistas.

Obviamente, não pude deixar de observar que esses grupos também trocam expressões comuns com a intenção genuína de agradecer e saudar um ser superior, ou simplesmente a vida, pelos benditos acontecimentos que nos ocorrem — sejam eles algo excepcional ou um corriqueiro encontro entre pares.

É cada vez mais conhecido entre nós, ocidentais, que praticantes da filosofia indiana do ioga, por exemplo, encerram seus encontros com a saudação “Namastê”, que tem origem do sânscrito e pode ser traduzida como “meu eu interior saúda o seu eu interior”. 

Entre outras dessas expressões, está o já batido uso da palavra “gratidão”. Quando ficou na moda, há alguns anos, inclusive gerou fervorosas discussões quanto ao erro gramatical de substituí-la por “obrigada”, “grata” ou “agradecida”. Passada a onda, porém, segue em uso por muitos adeptos que garantem que a palavra carrega um sentido de agradecimento mais elevado que o “muito obrigada”.

Munida da vontade de agradecer os acontecimentos da minha vida com a mesma intenção, fiquei perdida. Até tentei colocar em uso o “gratidão” e o “namastê”, mas não funcionou. Sempre que ousei fazer isso, senti forte estranhamento, simplesmente não me cabia.

Embora respeite profundamente todas as formas de agradecimento à vida, ao universo ou a qualquer coisa que o valha, entendi que o mais natural para mim era honrar meus antepassados e fazer como aprendi com minhas avós e meus pais. Sou grata ao que me ensinaram e hoje me sinto livre de qualquer resistência às minhas origens cristãs, graças a Deus.

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