O 1º Natal com a família após 14 anos atrás das grades; e o sentido de uma vida dentro da prisão: ‘melhorar sempre’

Maria (nome fictício) vive atrás das grades há 14 anos
Maria (nome fictício) vive atrás das grades há 14 anos

Nesta noite, pela primeira vez após passar os últimos 14 dos seus 50 anos atrás das grades, sem colocar os pés na rua, Maria vai passar o Natal com a sua família.

Desde que foi presa, ela nunca mais viu os quatro filhos. Os pais ela não vê há nove anos. O contato que tem é com um irmão, que a visita com frequência.

A ‘saidinha’, como o indulto é chamado dentro da prisão, começou dia 23 e vai durar dez dias.

Resolvi publicar o texto hoje porque é véspera de Natal, e nesta hora ela já deve estar com a família dela…

Para falar com Maria (o nome é fictício porque ela não quer ser identificada), eu fui até o Centro de Progressão Penitenciária (CPP) de São Miguel Paulista, na Zona Leste da cidade de São Paulo.

Maria falava como quem pensa muito, mas fala pouco, citando Deus a cada pausa. Parecia que ela já tinha repetido muitas daquelas frases para ela mesma antes de botar para fora. “Foi muito bom falar com você”, me disse. Com a cabeça baixa, me chamava de senhora e agradecia vez e outra pela entrevista, que aconteceu há cerca de dez dias.

Naquele dia, me contou que seu coração “estava a mil” para reencontrar os familiares.

“Eu tenho uma família maravilhosa. Eu tenho meus filhos, meus netos. Durante esse tempo todo Deus não deixou faltar nenhum. Deus poupou [a vida deles] para me ver. Eu não vejo a hora. São 14 anos, minha filha, é uma vida. Às vezes eu preciso de um abraço, eu preciso estar com alguém” – a frase, contudo, encerrou com um pedido de desculpas pelas lágrimas que caíam dos seus olhos.

Eu perguntei como que ela achava que ia se sentir ao ver a rua pela primeira vez, depois de tantos anos.

“Vou sair igual um bicho do mato. Você sai lá fora, passa mal. Mas vou pedir a Deus que não vou passar mal, nem nada. Meu irmão vai estar aí na frente com o carro me esperando. Eu acredito em Deus que tudo vai dar certo (…). Eu vou sair de cabeça erguida. Graças a Deus quero ver minha família. Vou ver todo mundo, até minha irmã do Paraná está vindo. Vai ser uma grande vitória para mim, uma conquista muito grande.”

40 anos de pena
A pena de Maria é de 40 anos, por um crime que ela garante que não cometeu.

Disse que foi presa por ter premeditado a morte do namorado. Mas nega. Conta que um ex-namorado matou o outro que ela namorava na época por ciúmes. E que policiais que chegaram no local em seguida acabaram matando o assassino. “Eu fiquei sentada no carro com os dois corpos em cima de mim.”

Afirma que só assinou a confissão do crime porque foi torturada por cinco dias seguidos e que sua família estava sendo ameaçada de morte. “Eu vou falar uma verdade para você, eu não estava aguentando mais apanhar. Era muita tortura. Isso aqui [a pele] estava em carne viva. Meu ouvido estourou, só sangrava. Então eu não estava aguentando mais. Eu falei, eu assino qualquer coisa.”

Durante a entrevista, contudo, disse várias vezes que “não vai mais errar” e “andar com a pessoa errada”. Falou que nunca mais quer se envolver com homem nenhum nessa vida.

“Eu não gosto nem de tocar muito nesse assunto porque sempre peço a Deus para esquecer, porque é um trauma muito grande na minha vida. Eu me envolvi com a pessoa errada.”

‘Esse mundo aqui dentro é muito ruim’
Maria disse que a vida na prisão é muito dolorosa. “Ver pessoas morrendo na frente da gente, das rebeliões, das próprias reenducandas judiando das próprias funcionarias. E a gente é obrigada a ficar junto com elas (…). Graças a Deus eu nunca encostei a mão em ninguém, mas eu oro por todas. O que eu posso fazer é orar. É triste você ver judiando de uma pessoa, é muito triste. Isso dói no coração. Elas batem, judiam, chegam a rebentar as pessoas. Esse mundo aqui dentro é muito ruim.”

Falou que a comida costuma ser horrível – ainda mais quando é feita por presos de outro presídio. Já pegou barata dentro do pão, bituca de cigarro. A comida às vezes vem azeda, estragada, disse.

Para ela, o CPP de São Miguel é a melhor penitenciária que já ficou. “Esse lugar aqui Deus preparou, de todos os lugares que eu já passei, esse foi o melhor. Já passei pelo Tatuapé. Já tive que passar por Franco da Rocha, depois fui para Campinas, onde meus pais moram. Voltei para Santana e de lá vim para cá.”

Lei do silêncio
Contou que na prisão não se pode chorar e impera a lei do silêncio. “Eu me calo para não transparecer a tristeza no meu rosto. Às vezes você me olha eu estou sorrindo, mas por dentro eu estou chorando (…). Às vezes eu não tenho uma pessoa para desabafar, para falar. Porque a lei daqui desse lugar é a do silêncio, você não pode chorar, tem que aguentar tudo calado. A gente chora escondido porque tem muitas que perguntam, você está chorando por quê? Você é inocente? Não tem inocente na cadeia. Se você é inocente o que está fazendo aqui dentro? Se você é inocente eu também sou.  Então, para muitas eu falo ‘matei mesmo’.”

Disse que o pior momento foi em 2005, quando ficou entre a vida e a morte. “Tive tuberculose, drenei meu pulmão (…). Foi meu pior momento, porque eu não tive uma amiga para me ajudar.”

“O sofrimento a gente guarda, porque tem que passar,  não tem aquele que não passa, mas graças a Deus eu já estou no fim agora dessa etapa.”

Faz cinco meses que ela foi para o regime semiaberto, mas ainda trabalha dentro da prisão. Disse que quando voltar da ‘saidinha’ vai fazer um curso para se preparar para trabalhar “lá fora”. Com isso, vai voltar para a cadeia só no final do dia, para dormir.

Sentido da vida
Para Maria, o sentido da vida é procurar melhorar sempre. Conta que costuma tentar ajudar as presas, dividindo a comida que ganha do irmão, dando uma “palavra amiga”, um “consolo”. Disse que essa postura a faz se sentir melhor. Na cela, dormem cerca de 25. “Somos uma família”.

“Por tudo que eu passei, o sentido da minha vida é continuar, esquecer o que passou. Porque minha mãe fala assim, ‘o que passou, passou, não tem como retornar, mas tem como você melhorar’. Então é o que eu pretendo, melhorar, fazer as coisas no sentido melhor, dar o melhor de mim. E aproveitar de mim tudo que eu não fiz eu vou fazer agora. Mas tudo de bom e de melhor (…). E pensar assim, filha, de tudo o que eu passei, eu sou vitoriosa, com certeza eu sou. E deixo essa experiência para muitos que ainda não vieram para esse lugar. É muito bom viver. A vida não tem preço. O sentido da vida é você procurar ser melhor sempre.”

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