Ela roubava, traficava e se prostituía para usar drogas: ‘eu fiz tudo errado’, diz, citando Deus como o sentido da vida

Ana doi presa em 2009
Ana foi presa em 2009

“Eu fiz tudo errado. Foi toda errada a minha vida. Hoje em dia eu me arrependo demais de tudo, desde o primeiro momento em que eu coloquei uma droga… Que eu falei, vou abandonar tudo. Eu me arrependo de tudo isso. Não tem como eu voltar atrás, mas tem como eu fazer melhor daqui pra frente, tem como eu mudar minha vida.”

Eu resolvi começar a história de Ana (nome fictício, pois ela não quer ser identificada), de 37 anos, indicando para o futuro porque ela disse desejar profundamente nunca mais reviver a experiência do passado.

“Roubar, traficar e voltar pra essa vida eu não volto mais. Eu já falei pra Deus que é pra ele tirar minha a vida… A gente não pode pedir a morte, mas pra ficar naquela vida eu prefiro morrer, porque praquela vida eu não volto mais.”

Conversei com Ana em dezembro de 2013, no Centro de Progressão Penitenciária (CPP) de São Miguel Paulista, na Zona Leste da cidade de São Paulo (no dia eu também falei com Maria, leia a história aqui).

Ana contou que se prostituía quando não tinha forças para se arriscar num assalto. “A gente, quando usa droga, fica 10 dias, 15 dias acordado. Depois, dorme cinco dias seguidos. Quando você acorda, o organismo não pede comida, ele não pede nada, ele pede a droga. Nessa daí você acorda fraca, não tem como eu roubar porque eu vou cair, os ‘polícia’ vai me pegar. Eu não tenho nem noção, a primeira coisa que a gente fazia era acordar e ir pra avenida.”

Disse que começou a usar drogas aos 18 anos, quando já tinha três filhos e seu marido morreu atropelado por um ônibus.

“Ele morreu atropelado, eu fiquei com as três crianças, foi onde eu cai em depressão. Não conseguia mais ficar dentro de casa, não tinha quem ficar com meus três filhos. Entrei em desespero. Aí levei as crianças para a minha mãe lá na chácara, deixei um com a tia do meu marido, e sumi, sabe, de casa. Não quis mais saber de nada, entrei nas drogas, conheci um cara, foi onde desmoronou minha vida.”

Com a vida que levava, contraiu HIV e chegou a perder um de seus oito filhos quando, grávida, apanhou da polícia. Disse que três deles nasceram após ela ter ficado doente, mas nenhum contraiu o vírus. O mais velho tem 19 anos e a mais nova, 5.

“Eu sofri muito na minha vida, eu sofri. Até eu chegar onde eu cheguei em usei craque, eu bebia, eu me prostituía. Tinha noites que ficava com mais de 30 homens para manter meu vicio.”

Nova vida na prisão
Ana foi presa em 2009 por um latrocínio cometido em 2003. Ela e um namorado da época tentaram roubar um ônibus para comprar droga. Na saída, ela disse que o namorado acabou atirando no motorista, que morreu. Ela fugiu, mas ficou na lista de procurados pela polícia. Seis anos depois disse que foi ‘caguetada’ por um rapaz que conheceu na favela, enquanto traficava, e acabou presa.

A sentença é de 26 anos de prisão, mas Ana já está no regime semiaberto e acredita que em breve poderá estudar e trabalhar na rua, precisando voltar à cadeia apenas para dormir.

Ter ido presa, contudo,  foi a melhor coisa que aconteceu em sua vida, garante. Revelou que quando cometeu o crime contou para sua mãe e recebeu o conselho de se entregar, mas não teve coragem. Afirma que vivia pedindo a Deus para sair “daquela” vida que levava e o rapaz que a dedurou acabou fazendo um bem para ela: “Foi o melhor eu ter ido para a cadeia, porque eu ia morrer na rua, você perde a confiança nas pessoas, eu recuperei tudo isso de novo.”

Na prisão, diz que passou a frequentar a igreja. “A partir do momento que você aceita que você errou, que você pede perdão para Deus, é que começam a melhorar as coisas na sua vida.”

E justamente é em Deus que Ana afirmou encontrar um sentido para a vida. “Eu acredito em Deus, o meu sentido da vida é que eu vivo porque Deus permite (…). A gente está aqui porque Deus permitiu que a gente viesse ao mundo. Muitas pessoas têm que passar pelo que têm que passar para chegar até a glória de Deus, porque esse mundo aqui não pertence a nós… porque tudo que você faz você vai pagar.”

Prevê um futuro melhor, quer voltar a estudar – parou na sexta série – e cuidar mais dos filhos (atualmente cada um deles está na guarda de algum parente ou amigo).

Filha mais nova de 12 irmãos, diz que tem casa para morar, deixada por sua mãe, que está viva mas mora em uma chácara. “Eu tive uma infância boa, meus pais sempre faziam o possível para não faltar nada para nós”, afirmou, apesar de quatro de seus irmãos terem morrido por terem entrado no crime.

Com lágrimas nos olhos, disse que sua mãe nunca a expulsou de casa, mesmo sabendo da vida que a filha levava. “Ela nunca falou ‘vai embora’. Ela nunca se desfez de mim… Mas quando estava assim pesado, porque não e fácil, você estar numa vida de droga, da prostituição… Eu não queria ficar perto das pessoas, então eu me isolava.”

Foi com muita naturalidade que Ana falou, durante toda a conversa, dos crimes que cometeu. “Estou falando a verdade, e é até bom porque eu abro meu coração, porque tudo isso estava dentro de mim”, disse.

Ana ainda disse que vai orar para que eu consiga solucionar todas as minhas dúvidas e concretizar meus objetivos: “vou orar para você e você vai conseguir”. Obrigada, Ana.

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