Após perder a mãe e o pai por câncer, ela encontrou o sentido da vida na corrida

Neste domingo, pela primeira vez, publico um relato em primeira pessoa, escrito especialmente para o Vidaria. É o depoimento da jornalista Giselli Souza, que reencontrou na corrida o sentido da vida após perder o pai e a mãe, ambos por câncer.

Conheci a história dela por meio de uma amiga. Achei tão bonita que propus a ela fazer um texto autoral sobre o sentido da vida… Ela topou!

Por causa da experiência com a corrida, Giselli criou o “Divas que Correm”, um blog onde dá dicas de corrida, alimentação saudável e ainda promove maratonas e estimula a mulherada a sair “correndo pra vida”. Por lá, também dá para saber um pouquinho mais sobre ela.

Agradeço à Giselli por ter aceitado meu convite. O relato é lindo, sensível e realmente inspirador. Obrigada mesmo, Gi!

Fiquem, abaixo, com as palavras dela:

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“Já perdi e reencontrei o sentido da vida tantas vezes que hoje, embora acredite que a busca não tem fim, me sinto mais feliz do que há tempos atrás. Reencontrei o sentido da vida na corrida, depois de perder a minha mãe, há três anos, por câncer.

Essa doença, aliás, fez parte da minha vida por quase 20 anos. Aos 14, vi a minha tia em estado terminal, no corredor do SUS, amarrada em uma cama. Três anos depois, vi meu pai no mesmo estado, mas em um hospital particular. Depois de cinco anos lutando contra a doença, ele foi embora. E eu fiquei ali, na frente dele, sem entender nada.

Seis meses depois, minha mãe descobriu que estava com câncer de mama. Durante 12 anos, frequentei o mesmo hospital que o meu pai se tratou, assisti aos mesmos tratamentos, para em 2010, aos 30 anos, ver ela também indo embora na minha frente. Um ano depois, meu melhor amigo também partiu, pela mesma doença. Ele tinha 40 anos e morreu depois de três meses após a descoberta do câncer.

Da primeira partida, então com 17 anos, a essa última, aos 31 anos, muita coisa mudou na Giselli. Passei pelos anos de revolta, de loucura, de tacar do “f.” e me lixar com o amanhã.

Aliás, para mim, não havia muito bem amanhã. A não ser o fato de novamente assistir todo o cotidiano de quem luta contra o câncer: das mil e umas tomografias, centilografias ósseas, ressonâncias magnéticas e a dor de ver quem eu amava, quem eu tinha como maior referência na minha vida, o meu porto seguro, o meu colo nos dias mais terríveis, ir embora dia após dia.

Cheguei a um ponto de odiar famílias felizes no elevador do prédio. Odiava ver pessoas ao lado dos pais idosos. Odiava dar “bom dia” para as pessoas, detestava as datas, seja aniversário, Natal ou Ano-Novo. Vivi por quase 20 anos, sempre acreditando que aquele era o “último”, ao lado do meu pai e da minha mãe. A morte era uma constante na nossa vida e embora não soubéssemos quando ela viria, ela se fazia presente todos os dias das nossas vidas.

Busquei refúgio nas noitadas, nos botecos, em bebedeiras intermináveis, nas drogas, em viagens e nada, nada diminuía o meu vazio.

Uma vez, ao ouvir da oncologista da minha mãe que dali em diante ela só iria piorar, perder a consciência, entrar em coma e morrer, senti vontade de me jogar na frente de um ônibus. Atravessei a rua do consultório, uma das mais movimentadas e próximas da Avenida Paulista, sem olhar para os lados, desejando que qualquer ônibus me atropelasse. O máximo que eu consegui foi uma buzinada e xingamentos. Não adiantava fugir. Eu tinha que passar por aquilo.

Giselli com sua mãe
Giselli com sua mãe: ‘Disse várias vezes o quando a amava’ (Foto: Arquivo pessoal)

Dormia muito e quando não era suficiente, induzia o sono com remédios. Tudo o que eu mais queria, por longos anos, era dormir. Dormir e não viver, ou melhor, não encarar o que estava acontecendo em minha volta.

Me enterrava no trabalho, chegava em casa, me entupia de doces, bebidas e drogas e dormia. A cada metástase que eu descobria da minha mãe, mais eu cavava o buraco. Passava noites dando Google nos exames para no final me desesperar em lágrimas vendo que a doença havia se espalhado por todos os ossos.

Sem perspectiva alguma de vida, fumando loucamente um maço por dia e bem acima do peso, aceitei o convite de um ex-namorado para ir ao parque correr. O objetivo ali não era emagrecer, nem virar atleta. Era fazer algo que me tirasse da cama e que não fosse boteco.

Aos poucos, parei de fumar. Depois de uns meses, comecei a emagrecer. Fiz as primeiras provas de 5 km e levava as medalhas à minha mãe. Cada vez mais debilitada, ela vibrava com as pequenas conquistas que eu estava conseguindo. Expressadas no formato de medalhas, elas eram o símbolo da transformação que eu estava fazendo comigo.

Dia a dia, fui tendo forças de cuidar da minha mãe, retribuindo todo o amor e toda a dedicação que ela me deu. Demorou para eu entender, mas o câncer da minha mãe era a oportunidade que eu tive para que resgatar tudo o que eu não fiz pelo meu pai e também o que eu ainda não havia feito por ela.

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Vivi ao lado dela por quase um ano no hospital, no seu último ano de vida. Trabalhava, treinava, me revezava com as enfermeiras, mas estava sempre ali, ao lado dela. Fazia maquiagens, pintava as unhas dela, falávamos mal da novela, dávamos longas risadas, chorávamos, nos abraçávamos e, principalmente, conversávamos bastante.

Disse por várias vezes o quanto a amava, o quanto estava feliz por estar ao lado dela naquele momento e o quanto ela era especial para mim. Em 11 de novembro de 2010 ela foi embora, também ao meu lado, assim como o meu pai. Fiz tudo o que ela havia me pedido quanto à cerimônia de cremação, da escolha das músicas, a roupa e até a maquiagem. Aquela era a minha última homenagem a ela.

Depois do adeus à minha mãe, continuei na minha busca pelo meu “eu” na corrida e, aos poucos, me resgatei por completo.

Redescobri o valor da vida, abandonei definitivamente os remédios, conheci meu marido, virei tia, emagreci 12 kgs, mudei de emprego, criei um blog de corrida, completei a minha primeira maratona…

Foram tantas mudanças que ao olhar para trás, vejo o quanto as dificuldades são grandes oportunidades para nós buscarmos o melhor de nós.

Hoje, ao lembrar do câncer dos meus pais, agradeço a oportunidade que eu tive de estar ao lado deles naqueles momentos e, embora tenha um pouco de medo do amanhã (em um dia voltar a ter contato com essa doença), vivo o meu hoje da melhor forma possível.

Eu escolhi viver e acredito que o melhor da vida ainda está sempre por vir. A busca não para e correndo ela se torna bem mais leve e divertida!”

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4 comentários

  1. Está mexendo no Face e vi o começo dessa história achei interessante e acabei entrando no Blog pra ler e achei Linda e emocionante…
    Parabéns…
    Linda História…

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