Pai ensina esposa e filhos e família trabalha unida consertando instrumentos musicais; ‘o sentido da vida é melhorar o planeta’, diz

Da esq. para a dir.: o sobrinho Nikolas, os filhos Gabriel e Jackeline, a esposa Tina e Zé Augusto
O sobrinho Nikolas (à esq.), os filhos Gabriel e Jacqueline;  a esposa Tina e Zé Augusto (à dir.)

José Augusto Sampaio Guidon, de 63 anos, é um luthier que gosta tanto do que faz que conseguiu convencer a família toda a trabalhar junto com ele consertando instrumentos musicais de sopro.

Trabalham ele, sua esposa, os dois filhos do casal e até um sobrinho. Eles reformam e restauram instrumentos como flautas, saxofones, trombones, oboés e clarinetes.

“É maravilhoso trabalhar com os filhos. É uma relação de amizade. Eu tenho um acordo com eles: vou cuidar deles por 30 anos e eles vão cuidar de mim para o resto da vida. O prazo está vencendo. Minha filha mais velha está com 28 anos, tenho mais dois anos para cuidar dela. Por isso que o negócio não é meu. É da minha esposa, e dos meus filhos e meu, nessa ordem.”

Zé Augusto, como é conhecido, perdeu as contas de quantos instrumentos musicais já passaram pelas mãos da família desde que ele deu início ao ofício, cerca de 30 anos atrás.

Estimou, contudo, uns 6 mil. “Se imaginar 365 dias por ano, teve dias de eu consertar cinco, seis. Minha mulher mais dois, minha filha mais dois, já soma dez num dia”, calculou.

Flautas por todo lado

Eu conheci o Zé Augusto porque comecei a fazer aulas de flauta e meu professor o indicou para eu comprar meu instrumento – tendo em vista que um novo era muito caro e desnecessário para quem está aprendendo a tocar.

No dia que o visitei, ele gastou um tempão falando comigo sobre a flauta e me mostrou uma parte de sua coleção do instrumento. Flautas dos mais diversos tipos e origens ficam penduradas na parede de uma das salas da oficina onde ele recebe os clientes.

Eu fui tão bem atendida e percebi tanto prazer no que ele fazia que fiquei com vontade de entrevistá-lo sobre sentido da vida. Ele aceitou participar e, passados alguns meses, retornei ao local para a entrevista.

‘Minha grande paixão é restaurar’

José revelou que sempre gostou de música, mas nasceu com o dom de trabalhos manuais. Por isso que, apesar de saber tocar inúmeros instrumentos (nenhum profissionalmente), acabou se tornando luthier, e não músico. “Minha grande paixão é restaurar, fazer a coisa voltar a ser o que era mais perto do original.”

“Já consertei instrumento que foi atropelado por carros, que caiu de moto. Já consertei instrumento insubstituível, aquele que era do pai, do avô, do bisavô, não tem como substituir. Se tiver possibilidade, eu conserto.”

Já a relação com os instrumentos de sopro surgiu após ele ganhar um clarinete de um músico. “Me apaixonei pela sonoridade do instrumento de sopro, pelo envolvimento que ele tem com nossa capacidade respiratória. E a respiração está ligada à sustentação da vida, se parar de respirar você morre. E isso acho que é uma coisa muito envolvente. Ele definitivamente faz com que uma pessoa que toque um instrumento de sopro cante afinado.”

De Jaú para o mundo

José nasceu em Jaú, no interior de São Paulo. Formou-se em agronomia mas não chegou a atuar na área. Após se formar, foi para os Estados Unidos, onde trabalhou numa gráfica. Quando voltou ao Brasil, chegou a abrir uma empresa de estamparia de tecidos, mas percebeu que não era o que gostava de fazer. Voltou para os Estados Unidos em busca de aprender o ofício de luthier.

Nessa época, tinha se casado há pouco tempo com Tina, sua esposa até hoje, e contou que chegou a ir e voltar para os Estados Unidos 25 vezes em um ano porque ela estava grávida e não podia ficar sozinho.

Após aprender o ofício, ele voltou ao Brasil e começou a reformar e vender os instrumentos. Tina, que é bióloga, aos poucos começou a ajudá-lo. “Quando ela se deu conta, já estava fazendo o trabalho e também foi para os EUA fazer o curso com o mesmo professor que me ensinou.”

Como os filhos cresceram vendo os pais consertando os instrumentos, aos poucos começaram a ajudá-los. Apesar de terem feito faculdade em outras áreas, optaram por seguir o caminho do pai. A filha mais velha, Jacqueline, de 28 anos, é formada em Educação Física. Gabriel, de 26, é engenheiro. Depois, Zé Augusto ainda convidou o sobrinho Nikolas para ajudar a família.

“Eu envolvi todo mundo. É o poder da música, não fui eu. Mostrei a eles a cor da situação, e a cor agradou de certa forma”, revelou. “Eu mostrei que é assim, eles aprenderam e hoje são melhores do que eu, pegaram tudo que fiz de bom e ficaram melhores.”

Consertos à parte, toda a família também toca algum instrumento como hobby: Tina é flautista, Jackeline toca violão e Gabriel, piano. Nikolas é baterista. Zé Augusto toca alguns instrumentos de sopro e já tocou de cordas no passado.

Sentido da vida

Quando perguntei ao luthier o sentido da vida, Zé Augusto me disse que não fazia outra coisa a não ser pensar no assunto. Disse que gosta muito de pescar, uma atividade que o obriga a ficar em silêncio e, automaticamente, leva à reflexão.

“Eu começo a tentar desvendar o sentido da vida. O que nós estamos fazendo aqui?”, perguntou.

E tentou resumir a conclusão que chegou: “É melhorar o planeta, melhorar tudo, melhorar a vida de todo mundo. Eu não conseguiria dizer para você que eu sou plenamente feliz enquanto tiver alguém passando fome em cima do planeta que eu habito.”

Sonho

Colecionador de instrumentos musicais, com quase mil peças guardadas, ele tem o tem o sonho de montar um museu para espalhar o conhecimento que adquiriu com a música aos demais. Revelou que já tentou apoio inúmeras vezes, mas nunca conseguiu colocar a ideia em prática. “Ainda sonho, ainda fica pensando que um dia vai dar certo.”

Avaliou que o conhecimento é uma dadiva, “uma coisa que a gente tem sede de adquirir e depois a obrigação de disponibilizar.

“A gente precisa de alguma maneira apagar a maldade. O ser humano carrega uma coisa com ele que é a maldade, como carrega a bondade. A bondade tem que se revelar e a maldade tem que se apagar, não pode deixar ela ganhar. Muitas vezes a pessoa não percebe que, sendo bom, está induzindo alguém a ser bom também.”

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Um comentário

  1. Adorei a história ,pois o trabalho conheço de perto sou cursado na jgg com algusto obrigado por me fazer parte desta vida tão maguinifica
    .

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