Serial killer: uma crônica em tempos de coronavírus

Aranhas Nesticodes rufipes

[Esta é uma crônica da série #crônicavírus, escrita por mim no momento da pandemia do coronavírus, Covid-19]


Serial killer

Minha relação de convivência com as aranhas de casa havia começado há poucos anos. Aconteceu graças a uma fala da mestra que sigo com tanta admiração, a Monja Coen.

Certa vez, a ouvi dizendo que todos os seres vivos precisam ser tratados com respeito, incluindo os insetos. Ela dizia que não os matava, no máximo os assoprava para longe.

Refleti que tal postura fazia sentido para mim, e passei a aceitar com harmonia as pequenas aranhinhas que habitam os cantinhos do teto dos 50 metros quadrados do meu apartamento. Uma vez inclusive as olhei com ternura, pois não me sentia sozinha. Sempre que olhasse para cima, no teto do escritório, lá encontraria uma delas paradinha, em sua teia.

Até que chegou a quarentena e resolvi limpar com afinco meu armário, incluindo o repartimento de cima, deixado de lado nas faxinas corriqueiras. Qual foi minha surpresa quando as aranhas-mães – pais e quiçá avós – das pequeninas dos cantinhos vieram me cumprimentar.

Desde então, sou uma serial killer. Pela primeira vez usei o veneno que havia sido comprado por uma antiga roommate para matar as mesmas aranhas que, na época, viviam no banheiro.

Quanto mais limpo, mais aranhas anciãs aparecem, bravas, para protestar e me assustar. Três delas já desceram do teto em direção à minha mesa de trabalho, sempre na mesma rota, na tentativa de me fazer parar (a da foto é uma delas, flagrada antes da morte).

Serial KillerNão dá mais. Sem spoilers, sinto-me aquela personagem de um dos episódios de Black Mirror (quem assistiu sabe qual é), que não para de matar pessoas para eliminar testemunhas do primeiro crime. Dói no coração, mas como conviverei com uma comunidade de aranhas? Dá medo. Desculpa, monja, mas sou uma assassina em legítima defesa.


Atualização: passadas algumas semanas após a escrita deste texto, solicitei ajuda a uma amiga bióloga para identificar se os aracnídeos encontrados no meu escritório eram perigosos para o ser humano. Após algumas consultas a colegas de profissão, ela me respondeu com o nome da espécie que compartilha meu escritório comigo, Nesticodes rufipes, também conhecidas como aranha-de-canto-de-parede. Elas são inofensivas ao ser humano e, portanto, parei novamente de matá-las. Uma história trágica, porém, com final feliz.

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