Como Rita Lee narra abuso sexual na infância em autobiografia

Rita Lee escreve toda a sua autobiografia em tom coloquial
Rita Lee escreve toda a sua autobiografia em tom coloquial

Em sua autobiografia, Rita Lee foi corajosa e falou com naturalidade sobre um assunto delicado: sofrer abuso sexual na infância. Quem está escrevendo sobre a própria história para si ou com o intuito de publicar um livro sabe o quão difícil pode ser escrever sobre dificuldades e traumas vividos. A narrativa da cantora pode servir de inspiração e até mesmo ajudar escritores a encontrarem formatos de botar para fora angústias do passado.

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Escrever sobre episódios difíceis da nossa trajetória é sempre um desafio. Primeiro porque toda vez que lembramos do ocorrido é como se revivêssemos o momento, sofrendo novamente. Segundo porque ficamos preocupados com o que os outros vão pensar a nosso respeito ao ler o relato.

Contudo, encarar a empreitada e jogar tudo o que passamos para o papel pode ser curativo. É uma forma de passar a limpo tal episódio, ressignificando-o. Isso acontece porque muitas vezes deixamos essas memórias em um campo sombrio do passado. Escrever sobre elas é como fazer um desabafo para o papel. Depois, ao reler, temos a possibilidade de enxergar a situação com distanciamento.

A autobiografia da Rita Lee

Rita Lee escreve toda a sua autobiografia em tom coloquial, como se estivesse conversando com o leitor. Não é de forma diferente que ela narra o episódio de abuso sexual na infância, que copiei abaixo, tal como está no livro:

DESVIRGINANDO

Um dia a máquina de costura Singer de Chesa [mãe dela] engasgou e veio um técnico da firma. Me contaram que eu brincava no chão da copa enquanto minha mãe mostrava pro cara onde a coisa estava enguiçada. O telefone tocou, ela saiu para atender. Quando voltou, me encontrou sozinha no mesmo lugar, olhando petrificada para o cabo de uma chave de fenda enfiada fundo na minha vagina, de onde escorria uma gosma vermelha. O filho da puta do técnico fez aquilo e sumiu do mapa. Foi o grito alucinante da minha mãe que me tirou o torpor e, vendo ela se desesperar, eu abri mó berreiro também. Não lembro de ter sentido dor, nem do que aconteceu em seguida, certamente deletei esse capítulo. Só sei que desse dia em diante as mulheres olhavam para mim como a pequena órfã. A dor delas certamente foi muito, mas muito maior do que a minha. Chesa, Balú e Carú guardaram a tragédia como o grande segredo do fim do mundo de todos os tempos. Se meu pai ficasse sabendo, provavelmente iria atrás do sujeito para matá-lo e não seria bom para ninguém o chefe da família ir pra cadeia. Portanto, as mulheres seriam as únicas guardiãs do meu “tesourinho” arrombado. Para consolar a caçula e fazê-la jurar pelo Menino Jesus de Praga (por “praga” eu entendia que o menino era travesso como eu) que nunca contaria sobre o “dodói” nem para ela mesma, fizeram uma vaquinha e compraram o álbum de Peter Pan com uma porrada de figurinhas para colar, que eu completei meses depois e guardo até hoje.

Acredito que foi a partir daquele momento que las mujeres passaram a relevar meus desajustes comportamentais. Nunca me castigaram, nem mesmo com aquele eventual tapinha na bunda que minhas irmãs volta e meia levavam. Me tratavam como uma espécie de aleijadinha psicológica. “A Ritinha é nossa caçulinha, é justo protegê-la”, explicavam elas. E essa proteção extra se seguiu inclusive na minha vida adulta. As saias justas pelas quais passei com drogas, prisão, críticas e boatos foram entendidas como “a dor que ela carrega na alma por causa ‘daquilo’, tadinha”. 

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