Toda partida é uma chegada: mudar de cidade é uma forma de se redescobrir

Rosa Abaliac: mudar de cidade é uma forma de se redescobrir
‘Eu sei que não dá para criar asas e raízes ao mesmo tempo… Ou você voa ou finca os pés no solo’

Às vezes ganho histórias de presente aqui no Blog Vidaria. Há algumas semanas, a psicóloga Rosa Abaliac me escreveu – após ler o depoimento da Valesca Mendes (leia aqui) – com o interesse de contar sua história.

Rosa saiu de casa aos 13 anos para estudar e hoje, com 30, já morou em sete cidades e visitou 29 países. Em seu depoimento, ela narra os aprendizados em sua jornada.

“Conhecer outra cidade – seja para passar férias ou para morar – é uma forma de você estar aberto ao novo. De você se descobrir e se redescobrir; entrar em contato com seus medos, seu espírito aventureiro (…). É sobre experimentar temperos, dançar novas músicas, se expor ao ridículo…. Aprender as histórias de cada lugar, as regras sociais, o jeito de se vestir, as crenças. Vivenciar novos costumes, escutar diferentes sotaques; perceber que o ar que respiramos é diferente em cada lugar (o daqui de São Paulo, por exemplo, ataca minha rinite, como em nenhum outro lugar do mundo, rs)” revela Rosa.

Para quem gostou da prévia, ela mandou o texto prontinho, então optei por compartilhá-lo tal como chegou:

Toda partida é uma chegada

“Em abril de 2001, depois de um longo abraço, minha mãe me disse: “filha, vai com coragem e paciência que você vai construindo e conquistando o seu caminho. Não precisar ter medo.” Mas eu estava com medo, sim! O máximo que já tinha ficado longe dos meus pais foi em algumas férias, no máximo por 20 dias, não mais do que isso.

Eu tinha 13 anos e estava saindo de casa, em Brumado, na Bahia, para morar em uma cidade maior, Vitória da Conquista, com a justificativa de estudar em uma escola melhor. Pelo menos, era o que a gente falava para todo mundo. Mas depois de um tempo, conclui que o motivo verdadeiro é que eu queria aprender a me virar e me desafiar. Fui morar em uma espécie de república com mais de 30 universitários; os meninos ficavam no andar de cima e as meninas no de baixo.

Foi um choque de realidade em todos os sentidos: na minha casa, minha mãe me acordava todas as manhãs, muitas vezes me vestia, eu fazia muito drama e tinha que ser arrastada da cama. Agora eu tinha que acordar ao toque de um despertador (acredite, isso não é tão simples quanto parece se você levou uma vida inteira sendo acordada).

Na minha casa eu dividia o quarto apenas com minha irmã; tinha um armário enorme para mim, as roupas apareciam limpas e passadas dentro das gavetas, a bagunça era arrumada tão rápido pela minha “babá” que eu nem percebia quanta bagunça fazia.

De repente, estava eu dividindo o quarto com mais três moças desconhecidas (uma delas chorava dia e noite. E eu tendo que dar conta de fazer minha cama, arrumar minhas coisas, aprender a lavar roupa, a lavar louça (nunca tinha feito nada disso), a ir caminhando para o colégio (sempre ia de carro), tinha que dar conta de administrar minha mesada…

Era muita coisa nova! Fora que eu estava no ensino fundamental (não ia para baladas e nem namorava) e todos da casa tinham mais de 18 anos e viviam um outro estilo de vida. E eu naquela obrigação de ser boa aluna em uma escola mais puxada e me enturmar com os colegas de sala e o pessoal da minha nova casa.

A principal mudança foi em relação à alimentação. Nunca gostei de comer, vivia à base de cápsulas de vitaminas, Sustagem e leite. Quando comia, não admitia ver um tempero, uma cebola no prato. A minha comida era separada do restante da casa (muito mimada me-e-esmo). Na república eu tinha que correr para a fila do almoço, ou ficava sem comer. Comecei a experimentar frutas e verduras, comecei a finalmente ganhar peso!

De fora para dentro

Através dessa mudança geográfica, fui também mudando a forma como via o mundo e como me portava. Fui tentando me livrar das frescuras da infância e entender que eu era a única responsável por mim – por mais que sempre tive todo o apoio da família. Sair de casa representou o empoderamento da minha vida. Mas também representou o começo de uma longa história de ansiedade.

Eu me cobrava demais, achava que tinha o controle de tudo… Sabe aquela coisa que alguns filhos têm de querer agradar e satisfazer os pais? Eu tinha isso muito forte! A cobrança sempre foi minha. Nesse mesmo ano, desenvolvi um transtorno psicológico chamado tricotilomania. Eu arrancava os fios do meu cabelo pela raiz, principalmente quando estudava. Meu cabelo era muito volumoso, mas foi afinando consideravelmente. Esse transtorno esteve presente na minha vida dos 13 aos 27 anos – com alguns períodos de picos e pausas.

Uma nova partida

Aos 16 anos me mudei para Belo Horizonte, onde fiz o último ano do ensino médio e a faculdade. Quando morava em Conquista, tinha a opção de ir quase todo fim de semana para Brumado, contudo, agora em BH eu só conseguia ir umas quatro vezes por ano. Não existia avião para lá e as viagens de ônibus demoravam mais de 16 horas.

Morar numa capital era meu sonho de criança! Quando ia passar as férias em alguma cidade grande, ficava encantada com a diversidade de pessoas nas ruas, a vida noturna, os prédios, elevador, escada rolante, tudo era incrível. Aproveitei bem a vida cultural, que não existe em cidades pequenas. Ia a museus, exposições, shows, teatros (inclusive fazia parte de um grupo, apresentava peças também).

Seis meses de mordomia

Assim que terminei a faculdade, voltei para Brumado e comecei a trabalhar como psicóloga clínica em um posto de saúde. Depois de nova anos fora, voltei a morar com minha família. Era tão maravilhoso estar junto! Tão bom não ter que me preocupar com contas de casa, com o supermercado, nem com nada… Mas a mordomia durou apenas seis meses. Eu tinha o sonho de fazer intercâmbio, então, saí dos 40 graus da Bahia e fui para os 5 graus do Canadá, sem conhecer ninguém e sem saber falar inglês. Morei em Vancouver por 10 meses em 2011. Antes disso, tinha estado em apenas dois países – aos 15 anos nos EUA e aos 20 em Israel.

Novamente esta mudança de endereço representou uma mudança profunda na minha vida. Lá eu fiz de tudo: estudei, trabalhei como pizzaiola, como vendedora em lojas de departamento, como promoter de festas… Foi uma época intensa de festas, passeios, viagens… Fiz amigos do mundo inteiro!

Estava tão feliz e cheia de vida, até que um dia, dobrando uma esquina, me choquei com um homem que vinha na direção oposta correndo. O impacto foi tão violento que caí pra trás e bati com a cabeça no meio fio. Fui levada para o hospital, mas graças a Deus tive um traumatismo craniano leve.

Fiquei quase um mês sem conseguir andar direito por conta das tonturas. Apesar de ter sido difícil, nem cogitei voltar antes para o Brasil, afinal, morar longe de casa também significa passar por perrengues sozinha. Me recuperei aos poucos, mas a vida lá era pura adrenalina. Situações tragicômicas costumam acontecer com os intercambistas, comigo foram várias, como o dia que quase tive hipotermia (diminuição excessiva da temperatura normal do corpo) na pista de esqui e tive que esperar duas horas por um resgate.

Depois disso outras mudanças de cidade aconteceram. É sempre um desafio se mudar sozinha e começar uma vida do zero. Ter que se apresentar para as pessoas, contar a mesma história diversas vezes… Se adaptar ao clima, ao jeito de viver, ao ritmo de cada cidade… Mas o desafio mais difícil é ter que lidar com as saudades. Morro de saudade de tantas pessoas que passaram na minha vida…

Não era o fácil que eu queria

Em 2018 completei 17 anos da saída da casa dos meus pais, com muitos altos e baixos, como é de se esperar na vida de quem se arrisca. Atualmente moro em São Paulo. Lógico que em vários momentos pensei que seria tão mais fácil se, depois da faculdade, tivesse simplesmente voltado para minha cidade no interior. Seria mais fácil profissionalmente, emocionalmente e financeiramente. Mas não era o fácil que eu queria… Porque sempre pensei que se não saímos da nossa zona de conforto, não nos transformamos.

Acho que interpretei a frase da minha mãe, assim: “filha, se joga nesse mundão”. E tenho feito isso mesmo. Estou com 30 anos, morei em sete cidades, visitei 29 países… Já pensei em morar em tantas outros lugares. Até hoje, na verdade, me questiono sobre isso. Já fiz tantas viagens que tinha vontade: trabalho voluntário na África do Sul, mochilão na Europa, visita aos campos de concentração, retiro espiritual, estudos religiosos em Jerusalém… As viagens são um capítulo à parte, mas o que quero transmitir é que conhecer outra cidade – seja para passar férias ou para morar – é uma forma de você estar aberto ao novo.

É uma forma de você se descobrir e se redescobrir; entrar em contato com seus medos, seu espírito aventureiro… É uma forma de se permitir sentir tudo ao mesmo tempo. É uma forma de você encarar seu lado mais extrovertido e o mais introvertido também. É sobre experimentar temperos, dançar novas músicas, se expor ao ridículo… Aprender as histórias de cada lugar, as regras sociais, o jeito de se vestir, as crenças. Vivenciar novos costumes, escutar diferentes sotaques; perceber que o ar que respiramos é diferente em cada lugar (o daqui de São Paulo, por exemplo, ataca minha rinite, como em nenhum outro lugar do mundo, rs).

Sobre criar asas e raízes

Tem uma frase que diz assim: “Os maiores presentes que você pode dar aos seus filhos são as raízes da responsabilidade e as asas da independência.” Meus pais me deram esses presentes e eu os recebi de coração aberto. Mas eu sei que não dá para criar asas e raízes ao mesmo tempo… Ou você voa ou finca os pés no solo. Ou você iça as velas ou joga a âncora. E sempre fico nesse dilema. Ainda bem que a vida é feita de fases, ciclos e momentos. Tem o tempo de plantar e o de colher, tem o tempo de você ser do mundo e ser só sua, o do movimento e o da pausa, o da espera e o da conquista.

E o mais lindo de tudo isso é que o tempo é único para cada pessoa. De repente você resolve fazer um intercâmbio aos 60 anos e está tudo ótimo. De repente você consegue o emprego dos sonhos aos 20. De repente você larga tudo para passar um ano meditando na Índia e está tudo bem. De repente você conta um pedacinho da sua história e percebe novos sentidos. De repente, mas bem de repente mesmo, você se olha no espelho e tem orgulho de ser quem é.”

Escreva um livro sobre a sua história

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