Por que a vida agitada nos torna escravos de nós mesmos

Hiperatividade nos torna escravos de nós mesmos. Foto: FreeImages.com/Gozde Otman
Hiperatividade nos torna escravos de nós mesmos. Foto: FreeImages.com/Gozde Otman

Você já se pegou sendo pressionado por si mesmo para fazer mais do que faz rotineiramente, para render mais, realizar-se mais, “ser” além do que é? Ou às vezes, mesmo sem ser intencional, compara sua vida com a de outras pessoas (seja pelo Facebook ou na vida real), avaliando quem é mais “interessante”, mais descolado e bem realizado?

A cobrança para agir mais e ser autêntico é frequente nos dias de hoje. A nossa geração nasceu pressionada para ter sucesso, “fazer e acontecer”. O resultado é uma leva de pessoas decepcionadas com o que se tornaram, muitas vezes perdidas sobre quem são. E o mais curioso, buscamos não só a aprovação dos outros, como a nossa própria, e nos frustramos com as expectativas que criamos, ficando escravos de nós mesmos. Não é louco isso?

Por que ficamos escravos de nós mesmos?

Talvez eu esteja aumentando ou exagerando um pouco nos extremos. Não sei se fazemos essa autocobrança de forma tão consciente. Mas eu cheguei a esse pensamento após ler alguns livros que analisam o estilo de vida da sociedade atual e, via de regra, citam como estamos cansados de buscarmos sermos melhores, mais produtivos, alcançarmos o sucesso – seja lá o que isso signifique.

Um deles é o “Sociedade do Cansaço”, do filósofo Byung-Chul Han. De uma forma resumida, ele comenta como a sociedade ativa moderna vive em estado de “histeria e nervosismo”, que sofre uma autocobrança e necessidade de produzir mais e melhor constantemente. O autor avalia que esse estado causa esgotamento e depressão nos indivíduos. Não somos mais cobrados por fatores externos, como um patrão ou a escala de trabalho da empresa. A cobrança atual, diz, vem de nós próprios, em uma era onde somos “soberanos de nós mesmos”.

Não sei se ficou claro, mas um exemplo seria essa onda do cidadão empreendedor, dono de si, protagonista e que precisa avidamente descobrir “quem ele é” e o que ele nasceu para fazer na vida. É uma liberdade paradoxal, avalia o autor, pois continuamos presos, mas à nossa própria autocobrança por “acontecer” e pelo esforço de termos de ser nós mesmo, de descobrirmos quem somos e para que viemos ao mundo.

“O excesso de trabalho e de desempenho agudiza-se numa autoexploração”, diz. “O autor é ao mesmo tempo explorador e explorado”, avalia.

Insatisfação que nos deixa exaustos

Em reflexão parecida, no livro “Por que fazemos o que fazemos” Mario Sérgio Cortella analisa como os jovens atuais são criados para serem bem sucedidos desde pequenos.

Ele avalia que existe um tipo de insatisfação que é positiva, aquela que nos move a querer mais e melhor. Mas há também uma insatisfação negativa: que é aquela que nos consome tanto que nos deixa exaustos. “Se você passa o tempo todo em estado de sofreguidão, em busca de algo – mesmo que já tenha, quer sempre um patamar acima – sem que haja possibilidade de agregar aquilo como uso e fruição, qual o sentido?”, questiona.

Cortella sugere, ainda, que a atual geração já não pensa mais como os pais, que antes viviam para trabalhar e acumular bens. Uma parte dos jovens hoje quer viver de forma alternativa, diz, mas para isso é preciso ter consciência do propósito. E acrescenta: “uma vida com propósito é aquela em que eu entenda as razões pelas quais faço o que faço e pelas quais claramente deixo de fazer o que não faço.”

No livro “Vida ativa”, de Parker J. Palmer, o autor avalia que muitas vezes nossa ação, na verdade, é uma reação – ou seja, agimos por impulso, sem saber exatamente o motivo ou o fruto que queremos colher de tal ato. Ele diz: “Esse ‘fazer’ não brota de corações livres e independentes, mas depende de provação externa. Não provém de nossa percepção do que somos e do que queremos fazer, mas da ansiosa leitura de como os outros nos definem e daquilo que o mundo exige.”

A importância do espaço para a contemplação

E aí que eu tomo a responsabilidade de fazer a junção entre os textos. Isso porque, ao final do livro, Byung-Chul Han avalia que a exaustão ocorre porque não temos espaço para a lacuna, para a contemplação. Na medida que vivemos nessa sociedade do desempenho, da produtividade, ficamos esgotados sem tempo para a reflexão, para a meditação.

Palmer sugere uma integração entre ação e contemplação. Seria um ponto em que sabemos o motivo da ação, o porquê a fazemos. E ter momentos contemplativos para mudar nossa consciência sobre como de fato agir. “A função da contemplação em todas as suas formas é penetrar a ilusão e auxiliar-nos a contatar a realidade”.

Por contemplação entende-se aquele momento de passividade consciente – ou até mesmo atividade passiva, explica. Pode ser a tradicional meditação, mas também o exercício de uma tarefa como ler um livro, limpar a casa ou cuidar de um filho – desde que a pessoa esteja com o pensamento tranquilo.

Byung-Chul Han diz que há um lado ativo do não-fazer. “Na meditação zen, por exemplo, tenta-se alcançar a negatividade do não-para, isto é, o vazio, libertando-se de tudo que aflige e se impõe.”


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