De administradora a professora de yoga: como uma doença fez Valesca Mendes transformar sua vida

Valesca Mendes encontrou-se dando aulas de yoga
Após anos na carreira corporativa, Valesca Mendes percebeu que algo estava ‘fora do lugar’ e se encontrou na yoga

Lembro-me como se fosse ontem do domingo de sol em que conheci a Valesca Mendes. Em abril de 2015, fui ao Parque Villa-Lobos participar de um encontro que vi pelo Facebook. Era um evento com rodas de dança, yoga e piquenique. Eu estava tímida de ir só, mas queria participar. Arrisquei e foi a melhor coisa que fiz. Foi um dia “energizante”, de ficar com os pés descalços na grama. Foi a Valesca que deu a aula de yoga e lembro de tê-la agradecido pelo momento. Agora, anos depois, tive a oportunidade de conhecer a história de como a yoga entrou na vida dela.

Depois do primeiro encontro, eu frequentei aulas promovidas pela Valesca no Parque do Ibirapuera. Acompanhei quando ela e sua parceira Ana Paula Cavalcanti abriram o próprio estúdio de yoga e as entrevistei sobre a prática para um trabalho que fiz em 2016.

Apesar das aproximações, eu pouco conhecia sobre a Val – como tomei a liberdade de chamá-la. Foi recentemente, quando retomei o Vidaria, que ela simpatizou com a ideia de compartilhar sua história. E assim eu descobri a transformação que levou essa administradora de empresas a tornar-se professora de yoga.

Logo no começo da conversa percebi que a Val valoriza muito a intuição ao tomar suas decisões. Foi dessa forma que decidiu contar sua história – simplesmente seguiu o pressentimento. Aliás, ela afirmou que busca cada vez mais seguir essas sensações internas nas decisões do dia a dia, o que não foi sempre assim. Demorou até ela ter um “estalo” e perceber que o jeito como fazia anteriormente, priorizando a razão, poderia não o melhor para ela.

Fórmula para ser feliz

Valesca Mendes encontrou-se dando aulas de yogaFormada em administração, desde a faculdade Valesca fez estágios em empresas e cresceu no mundo corporativo. Apesar de não se identificar muito com a cultura empresarial – odiava usar salto e roupa social, por exemplo – revelou que sempre fez tudo como o “figurino mandava”: estudou inglês, espanhol, aprendeu Excel e contabilidade. “Fazer planejamento era comigo mesma.”

O curioso, contudo, é que a ela sempre gostou mesmo é de atividades com o corpo, esportes e movimento. Na infância, preferia brincadeiras de correr, dançar, andar de patins, tudo o que tivesse ação. Como acontece com muitos de nós, contudo, quando chegou o vestibular seguiu pelo caminho tradicional: “não tive coragem de optar pela educação física porque eu havia aprendido que trabalho é sério, é para garantir o futuro e não tinha nada a ver com o que me dava alegria, isso era lazer.”

E foi assim que, com o passar dos anos, o futuro já descrito neste texto começou a se concretizar: recebeu promoções e se tornou gerente. Por ter origem simples, disse que nunca precisou de muito para viver e conseguiu conquistar até mais do que precisava para seus padrões. Revelou que seu pai é contador e ela “herdou” dele a facilidade com cálculos, o que ajudava na carreira corporativa. “Tive uma educação bem regrada, por isso sempre fui disciplinada, dedicada e exigente.”

Com tanta dedicação, até o sonho de ter o próprio negócio se concretizou. Junto da irmã mais nova, que é fisioterapeuta, montou um estúdio de pilates e fisioterapia – tarefa que conciliava com o trabalho.

Válvula de escape

Depois de muitas horas de trabalho, porém, tinha a necessidade de “correr” para a academia – os exercícios físicos, na época, funcionavam como uma válvula de escape. “Eu saía todo dia às 18h, 19h e ficava na academia por duas horas. Fazia yoga, pilates, musculação, corrida, todas as aulas de body combat, jump, step. Era o jeito que eu tinha de extravasar”.

Assim foi levando a vida como um todo. Viveu seguindo um caminho do “sucesso” que, nos dias de hoje, é praticamente nos dado como pronto: juntou dinheiro para casar, comprou carro, um apartamento e se casou, tudo em busca de ter uma vida feliz. “Essa era a receita da felicidade que eu aprendi com a sociedade.”

A vida ia “muito bem, obrigada”. Mas depois que ela alcançou tudo o que imaginava trazer felicidade, disse que sentiu que a vida estava um pouco “vazia”. Perguntou-se a si mesma: “E agora, onde está a felicidade?”

Primeiro alerta

Foi mais ou menos na mesma época que uma doença a pegou de surpresa: descobriu que tinha endometriose profunda (presença do endométrio, tecido que reveste o interior do útero, fora da cavidade uterina). “Já estava em um estágio bem avançado e fui direto para a cirurgia.”

Foi uma fase muito difícil. Operou a bexiga, útero e tirou um pedaço do intestino. Ficou dez dias no hospital. “Emagreci horrores e minha impaciência fazia tudo ser pior. Tive alta, mas depois de alguns dias em casa precisei ser internada novamente.”

Pesquisando, descobriu que a origem da doença tinha bastante fundo emocional. “Percebi que eu precisava mudar meu jeito de ser, o trabalho excessivo gerava muito estresse e minha personalidade muito durona e preocupada estava atrapalhando.”

Mesmo com a descoberta, depois da recuperação ela acabou voltando automaticamente para a vida corrida. Sentia que precisava se preparar financeiramente antes de largar o mundo corporativo. “Mudei de empresa para ganhar mais e passei uma fase de muito, muito estresse.”

Até que, quando sentiu-se preparada, fez o que chama de “primeiro passo” para a mudança: deixou o emprego, mesmo sabendo que ganharia bem menos. “A doença que trouxe essa coragem, porque eu sinto que tive o que chamo de rebaixamento do ‘ego’. Porque é o ego que quer ter poder, status, que quer reconhecimento.” A doença repentina trouxe a pergunta que ela acredita que todos se fazem em tal circunstância: “por que eu? O que eu fiz errado?”

Recomeço

Foi quando Valesca resolveu resgatar o sonho de infância e começou a cursar educação física. “Estava com 30 anos, tinha disposição e tempo agora, queria realizar esse sonho, e quem sabe ser professora de pilates no meu estúdio.”

Só que, com menos estresse e mais tempo, ela começou a perceber coisas que não percebia antes e crises surgiram no seu casamento. No mesmo período, descobriu que a endometriose havia voltado. “Foi um baque. Já estava enorme de novo e precisei operar novamente. Foi difícil. Fiquei de novo internada muitos dias, mas eu era tão viciada em trabalho que quando eu estava no hospital pedia para minha irmã levar as coisas do estúdio para eu fazer o fechamento”.

A Val contou que com toda sua impaciência do pós operatório, depois de uma semana em casa ela teve uma infecção e voltou a ser internada. “Foi o momento do colapso. Comecei a enxergar que eu tinha que mudar, definitivamente.”

Ela não entendia por que a doença tinha voltado. “Nada era pior do que o medo de não poder ser mãe”, revelou. “A doença faz você perceber que não se pode deixar a vida passar, não posso ficar na busca. Por que a felicidade é o caminho e não o sucesso.”

Empurrão para acordar

Valesca avalia que precisou de ficar doente duas vezes para enxergar que precisava fazer grandes mudanças na vida. “São os sinais. Na primeira vez eu fiquei triste, mas quando melhorei voltei para o dia a dia normal (…). Na segunda vez eu pensei: ‘poxa, daquela vez eu já percebi que eu estava fazendo alguma coisa errada, por que eu não mudei naquela hora? Quantas vezes eu vou precisar ser internada, fazer cirurgia para eu perceber o que estou fazendo de errado?”

Foi aí que ela passou a procurar ajuda. Estava disposta a mudar – ou melhor, “já estava mudando”. Procurou vários tratamentos, fez seu mapa astral, começou terapia. No fundo, internamente ela sabia que precisava se separar, mas não tinha coragem. Com as mudanças na vida ela entrou em desconexão com o companheiro com quem estava há quase 14 anos .

A separação acabou acontecendo e, para a Val, esse foi seu segundo passo para o autoconhecimento. “Não acho que o problema era no relacionamento. O problema era eu comigo mesma, mas eu não sabia por quê.”

Busca por conhecer a si mesma

Contudo, ainda teve um terceiro passo, revelou: foi quando ela entrou em contato com sua espiritualidade e começou a frequentar um centro espírita. Isso porque a criação dela sempre foi católica. Hoje, contudo, ela não segue nenhuma religião, mas diz que o contato com o espiritismo foi importante na época. “Pois bem, minha vida havia começado a mudar: mudei de trabalho, de estado civil, de religião [na época] e ingressei em uma nova faculdade”.

E assim, sozinha, depois da doença, declarou: “eu não sabia quem eu era, o que eu queria, estava perdida, mas havia um grande desejo: me encontrar.” E disse: não é que eu não estava feliz no casamento ou na profissão. Eu não me conhecia. Como eu poderia ser feliz?

Foram as inúmeras buscas para isso: além da terapia e do coaching, fez diversos outros tratamentos (alguns para dor, outros para se conhecer). Segue a vasta lista: “Thetahiling, EFT, auriculoterapia, microfisioterapia, osteopatia, radiestesia, massagem terapêutica, e por aí vai”. Essas ações a ajudaram a perceber e a se libertar de crenças e equilibrar o emocional. Além disso, começou a participar de grupos de meditação, respiração, yoga e retiros.

Entrada da yoga em sua vida

A yoga ela buscou por indicação de uma amiga. “Foi no curso de formação de yoga que eu comecei a entender a profundidade dessa filosofia e me apaixonei. Comecei a estudar, praticar e decidi largar a faculdade de educação física pois eu tinha me encontrado.”

No prédio dela havia uma sala de yoga, e antes que ela se planejasse – o que antes era obrigatório – já estava dando aulas. “Acontecia tudo tão naturalmente. É como se o Universo me jogasse para isso. Eu simplesmente não tive que planejar.”

Foi assim que as mudanças internas tiveram início e Valesca começou a se encontrar. “Mergulhada na prática, eu sentia os seus efeitos. Limpeza e purificação no meu corpo, calma e tranquilidade na minha mente.”

De lá para cá, não parou mais. Dá aulas em parques e montou o próprio estúdio em 2016, o Leela Yoga. Hoje, diz que a diferença em sua vida é gritante. “Antes eu gostava mais do desafio do que do trabalho. Diferente de hoje, quando aproveito desde a hora em que eu sento e falo ‘vamos fechar os olhos’ até o último momento que eu falo ‘namastê’. Eu estou feliz pelo presente, pelo momento apenas.” Disse se sentir abençoada. “Parece que o yoga veio para mim como uma forma de desenvolver a mim mesma, apesar de também ajudar outras pessoas a se desenvolverem.”

E é assim que hoje, aos 35 anos, com a yoga e o autoconhecimento, ela dá sentido para a vida diariamente. E garante que a busca é contínua: “hoje, para mim, o sentido da vida é a presença e a entrega. Acho que é isso que mudou totalmente na minha vida.”

Valesca faz questão de ressaltar que está longe de achar que todo mundo precisa mudar radicalmente a vida como ela fez para ser feliz. “O exemplo maior que imagino é que as pessoas se percebam, percebam aquilo que precisam prestar mais atenção em si mesmas. É se conhecer, se amar e se aceitar. Todo mundo pode ser feliz dessa forma”, sugere.

Tomar decisão é sempre difícil, mas precisamos ter coragem e dar o primeiro passo, disse Valesca. “É difícil o desapego, mas ser quem a gente é de verdade é muito mais fácil do que essa busca por agradar uma sociedade, digamos, insaciável, né?”

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