O que físico aprendeu ao viajar do Alasca ao Brasil por 3 anos de bicicleta

Sentido da vida
André no Grand Canyon: ‘vida pode ser grandeza escalar’, refletiu (Imagens: Arquivo Pessoal)

“Não sei o sentido da vida,
tampouco sua direção…
…mas estou descobrindo sua intensidade.
Talvez ela seja uma grandeza escalar”.

O físico André Fatini registrou este pensamento em seu diário de bordo durante a viagem de três anos que fez de bicicleta entre o Alasca e o Brasil. Para quem não entende de física, ele explica: grandeza escalar é aquela que só tem intensidade, ou seja, não precisa de sentido nem direção. A viagem dele, por outro lado, tinha as duas coisas. Desceu as Américas até chegar de volta ao próprio país. Mas o ciclista aventureiro garante que, de tão intensa, a experiência nômade o transformou por completo.

“Não tem como voltar igual. Uma viagem dessa vai mudar a pessoa, sem dúvida alguma. Principalmente os valores. Para o que você dá valor, o que preza, o que prioriza”, ressaltou. Ao voltar, no dia do seu aniversário de 31 anos, ele se percebeu muito mais desapegado de bens materiais, do consumismo, do dinheiro. “Nas experiências mais fantásticas que eu tive não gastei nenhum centavo.”

Aprendeu, ainda, a dar valor às pequenas coisas. “Geralmente é quando falta algo que a gente dá valor. Então senti isso na falta de um banho quente, de uma cama confortável. Uma bolachinha de água e sal e um chá é um manjar dos deuses depois que você atravessa uma tempestade de neve.”

André viajou de 2013 a 2016. Eu tive a honra de ouvir a história dele em dois encontros, um em abril e outro em junho de 2017. Ou seja, conversamos quando havia completado cerca de um ano que ele tinha voltado para São Paulo, onde trabalha como professor de física em um cursinho pré-vestibular.

Durante o nosso papo, André me levou com ele para o sentimento de plenitude e liberdade que o habitou durante a jornada. E pelo o que parece, a sensação é viciante. Ele já pensava nos próximos passos: fazer uma nova viagem para desbravar a Ásia e Oceania. “Este mundo é muito lindo e merece ser visto. Acho que tenho tudo para isso, disposição, conhecimento, equipamento. É só falar ‘vamos lá’ e juntar um pouco de dinheiro.”

Foto que André tirou enquanto passava pelo Joshua Tree National Park, na Califórnia

Três anos de aventura

A viagem de bicicleta do Alasca ao Brasil não aconteceu da noite para o dia. Foi planejada com certa antecedência. André sempre gostou de pedalar e já tinha feito viagens mais curtas no passado, sempre sozinho. Por ser professor, se enfiava em miniaventuras nas férias de final do ano.

A primeira foi aos 22 anos, na própria América Latina. Em dois meses cruzou os Andes de bike sem ter nenhuma experiência antes. “O fato é que deu super certo. Adorei, me encantei, me realizei. Foi super desafiador. Você conhece e se entrosa com outras culturas. Enfim, me deparei com todas as virtudes, vantagens e qualidade de uma cicloviagem, tudo de uma vez. Para mim foi uma descoberta do mundo.”

Nas férias seguintes foi para a Patagônia e chegou a Ushuaia, na pontinha final da Argentina. A cidade é conhecida como “fim do mundo” por ser o último lugar da América do Sul onde se pode chegar por estradas. No outro ano ano ele deu a volta na Nova Zelândia, de novo por dois meses. Depois, fez uma viagem de um ano pela Europa em parceria com o cursinho onde dá aulas – recebeu patrocínio e gravava vídeos a serem transmitidos aos alunos.

Em 2013, sentiu que estava pronto para fazer algo maior. Pegou um dinheiro que havia juntado, desligou-se da escola e botou o pé na estrada – ou melhor, as rodas.

“Escolhi o Alasca porque é a maior distância da américa que você pode pegar. Ele está lá longe, no topo. Eu estava procurando uma coisa bem desafiadora. E me seduzia a ideia de voltar para casa pedalando, de chegar depois de muito tempo e falar: ‘ó mãe, tamo aí!’”

No começo da viagem, no Alasca: ponto foi escolhido pela distância até chegar ao Brasil

Momentos de êxtase

Em uma viagem de bicicleta pelas Américas, todo momento é novo, único, particular. Porém, entre os destaques, André era apaixonado por achar um lugar lindo, diferente, de preferência no nascer do sol, e fazer uma sequência fotográfica chamada “time lapse”, e explica: “ você monta a câmera em um tripé e deixa ela tirando fotos por horas. Depois, junta todas em um único vídeo rápido – ou seja, é o registro de todo o tempo passando em segundos, o que dá uma sensação de movimentos rápidos.

O ciclista geralmente escolhia lugares isolados em meio à natureza para fazer isso, como o pico de uma montanha ou um parque nacional. Ele deixava o equipamento preparado antes de dormir, madrugava, chegava no lugar, armava tudo e começava a fazer o time lapse.

“Eu ficava fazendo umas três horas. Enquanto isso, olhava o sol nascer, fazia um café, lia um livro. Eu permanecia três horas assistindo o sol nascer. Via a cor mudando. Para mim isso era o êxtase. Fiz vários, um mais lindo que o outro.”

Sozinho, sim, solitário, não!

Apesar de sempre fazer as viagens sozinho, André sempre conhece alguém na estrada. E mesmo quando estava só, não sentia a solidão bater. “Eu estava sozinho, mas não estava solitário. Eu estava bem.”

Nos três anos de viagem encontrou muitos companheiros de pedal que o acompanhavam na jornada. Chegou a ficar 9 meses em companhia de um ciclista americano e ambos se tornaram bem amigos. “Ele falava que passou mais tempo comigo do que com a ex-namorada dele.”

André carregava todos os seus pertences na bike, em alforges. Tinha de tudo: panelas, itens de cozinha, alimentos, barracas, roupas e, acredite, um violão. Às vezes quando parava para ficar em alguma cidade até em restaurantes ele tocava. “Comprei o violão no meio do caminho porque eu senti muita falta do samba, da Bossa Nova. Em nenhum lugar tocava. Eu falei, ‘quer saber, eu vou comprar e vou fazer a minha Bossa Nova.”

Afirma que não passou por nenhum momento difícil, apenas por perrengues como frio, desconforto, dores no corpo e certo racionamento de comida em alguns trechos.

Ele retornou ao Brasil no dia 13 de maio de 2017 – planejou chegar na data do seu aniversário, onde se encontrou com a família e amigos no parque do Ibirapuera para fazer um piquenique, tocar violão e contar as histórias.

“Para mim a chegada foi um lance meio místico. Eu nasci dia 13, às 13 horas e 13 minutos. Esse foi meu aniversário de 31 anos, que é 13 ao contrário. Então, quando voltei, eu estava no parque às 13h13 do dia 13”.

Ele comprou um violão para tocar Bossa Nova. Foto na Laguna de Quilotoa, no Equador

‘A cidade nos endurece’

Passado um ano de volta ao concreto de São Paulo – ele vive em São Bernardo e trabalha na capital paulista -, o ciclista sentia que a cidade nos endurece. “Imerso no sistema, com a correria, o trabalho e os compromissos, você acaba ficando mais frio, não vou negar”.

Seu olhar era muito mais leve e ampliado durante os três anos em que cruzou pedalando as Américas, garante. Ao andar de bike em países desconhecidos era preciso interagir e conhecer novas pessoas. Sem contar que estava aberto ao novo, à paisagem, ao inesperado. De volta a São Paulo a realidade é outra. “A coisa é mais robotizada”, define.

É claro que o ciclista mantém sua válvula de escape no dia a dia na cidade. Prometeu a si mesmo fazer o máximo possível para não endurecer na rotina e manter os ideais estabelecidos quando voltou. Não quer cair nos comodismos da vida em uma grande metrópole, mas seguir uma jornada mais simples e leve. Por exemplo, não pretende ter carro, mas caso venha a precisar, vai comprar logo um “Gurgel”: seria um veículo para fazer o que precisa, se locomover.

Sentia-se bem sucedido com relação ao próprio propósito. “Sinto que estou indo bem. Estou feliz com o estilo de vida que eu levo.” Aliás, é pedalando mesmo que ele vai de casa ao trabalho. São cerca de 20 quilômetros – o que ele faz em uma hora e, se apertar, 40 minutos.

Para a frente!

André pensou no poema que abre este texto quando estava no meio da viagem, no Grand Canyon, inclusive. Porém, no final, terminar a jornada, veio a ele outra ideia: “quando me perguntam o sentido da vida eu falo: ‘eu descobri, é para a frente!’” E explica: acho que para a frente é legal porque assim, a vida continua, ela segue, se há um sentido, para mim é esse.”

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